Portal do Paraíso

As cabeças balançavam penduradas nos postes. Entre chuteiras falsas e carcaças de pipas, os fios de nylon refletiam a luz morna das lâmpadas públicas. Os olhos vítreos vigiavam o morro sem piscar, de cima para baixo, de baixo para cima, guiados pela brisa. Os sorrisos escancarados, que bem podiam ser irônicos, ignoravam a imperfeição do morro. Fora há uns dez dias que chegara aos ouvidos de Pereira, delegado do distrito, o primeiro relato. Ele não dera atenção, claro, pois seria absurdo mobilizar o regimento porque um garoto decidira pendurar bonecas nos fios de eletricidade. Algumas coisas a rua deve resolver por si só. Mas uma nova queixa surgiu alguns dias depois, denunciando meia dúzia de cabeças, e no dia seguinte outra, relatando já umas trinta bonecas, progressão que continuou ao longo da semana. Quando, naquela noite, Pereira resolveu visitar o local, encontrou centenas de pequenos rostos de plástico decorando as ruas.

Portal do Paraíso. Por que as regiões mais pobres da cidade insistiam em apresentar os nomes mais bonitos? Os tijolos e blocos expostos, as calçadas irregulares, o cimento rachado, os telhados trincados de zinco, os bares escuros, a luz alaranjada dos postes que se recusava a adentrar as vielas, derramando-se rançosa e covarde na direção da cidade, nada ali justificava a comparação. A não ser, talvez, a maior necessidade de fé no conforto após a morte.

E agora era inevitável para Pereira imaginar o paraíso com cabeças de anjos expostas, suspensas pelos cachos, igualmente loiras e alegres, recebendo os convidados celestiais.

– Detivemos três suspeitos, senhor – informou um subordinado.

– Suspeitos por quê?

– Parece que andavam com umas malas estranhas.

– Leve os três. Vou falar com os moradores eu mesmo.

Além do perímetro delimitado, a população circundava as viaturas. Pereira pensou com sarcasmo que nunca vira, ali, seus veículos atraírem pessoas. Um dos oficiais fez menção de segui-lo, mas Pereira o dispensou com as costas da mão. Era melhor continuar sozinho.

– Dona Nandinha – chamou, e uma senhora de idade avançada se aproximou, baixa, rechonchuda e decidida. Tinha roupas curtas para suportar a noite quente, e um lenço colorido envolvia o cabelo, úmido na testa. – O que sabe dos três?

– O mesmo que você – asseverou, cravando no policial os olhos pequenos e cercados por rugas. – Que não fizeram um nada.

– Vou saber depois de interrogá-los.

– Cada um deles já mentiu na delegacia não sei quantas vezes. Quanto antes alguém é levado, mais cedo seus homens descem, e os meninos admitem qualquer coisa pela chance de botar vocês pra fora. Recebem tapinhas nas costas depois. Se um dia roubarem estrelas no céu e você subir querendo se impor, moleque é que não vai faltar mostrando brilho no bolso…

– Tá, tá – interrompeu Pereira. – Quem tá fazendo isso, então? – e apontou para as cabecinhas.

– O morro – respondeu Nandinha, categórica.

– Como assim, o morro?

– O morro tá se livrando do que não é daqui – explicou, e ele a deixou falando sozinha, lamentando que o tempo lhe tivesse enfim roubado o bom senso.

Retiraram cinco sacos de lixo cheios de cabeças plásticas dos fios de eletricidade. Evidências do caso, passaram o dia na delegacia, junto dos três garotos que logo deixaram claro nada ter a ver com o ocorrido. Pereira decidiu mantê-los detidos por mais um dia, para averiguar como o evento se reproduziria na noite seguinte, já que estava certo de que assim seria. Também era melhor ter alguém ali para atenuar sua raiva sempre que alguém chegava com um jornal novo no qual constavam fotos das bonequinhas decapitadas, sorrindo com deboche ao lado de textos relatando a dificuldade das autoridades em solucionar a questão.

Um trabalho como aquele demoraria horas para ser realizado. Ainda assim, os moradores do Portal do Paraíso alegavam não ter visto uma única pessoa subindo nos postes ou carregando os brinquedos. O que parecia mais óbvio para Pereira era que um grupo grande de indivíduos executasse o ato, amarrando sincronizadamente os cabelos de nylon à fiação. Não descartava, porém, a possibilidade de todo o morro estar envolvido e de que aquilo não passasse de uma afronta para desmoralizar sua organização.

De todo modo, mapeou as ruas em que as cabeças foram expostas, os horários das denúncias, inferiu possibilidades de onde iniciavam e acabavam os trajetos dos delinquentes, calculou o tempo que precisariam grupos de quinze, vinte, trinta elementos. Como as ligações ocorriam pela madrugada, enviou viaturas para rondarem a região após o entardecer, com ordens para não abandoná-la até que raiasse o sol, e ele próprio, após seu expediente, passou em casa apenas para dar um beijo na esposa e na filha, juntando-se à patrulha.

Nada disso impediu que Pereira, depois de adentrar uma viela para aliviar a bexiga, desse com a rua infestada de bonecas, ao mesmo tempo em que seu rádio e seu celular tocavam, avisando que avenidas adjacentes e paralelas, por todo o bairro, exibiam suas fileiras de cabecinhas mórbidas, apesar de não haver sinal delas minutos atrás.

As sirenes foram ligadas e os veículos perambularam em alta velocidade por onde quer que coubessem quatro rodas, em busca de qualquer pessoa carregando escadas, cadeiras, bolsas, mochilas ou um brinquedo que fosse. O tumulto acordou os moradores, que observavam da porta de suas casas os carros de Pereira subindo e descendo com a afobação dos desnorteados. Toda família sonolenta e assustada tinha ao menos uma garota pequena aos prantos, segurando uma criança guilhotinada no colo.

O delegado deu ordem para que seus homens iniciassem o interrogatório dos suspeitos sempre presentes e subiu sozinho pelas ruelas. O tempo fechara, uma garoa densa cobrira a cidade e a umidade desenhava halos dourados que santificavam as bonecas. Quando chegou na casa da velha, a chuva já caía forte. As faces lá em cima, nos fios, ignorando a euforia eternizada no plástico, pareceram chorar a saudade dos corpos.

Apesar do frio e de ser tarde da noite, ela aguardava do lado de fora, o cabelo rente e grisalho brilhando sob a luz dos postes.

– Nandinha – chamou, sem tentar ser simpático. – Vai me contar o que está acontecendo, hoje?

– Acontece é que essas bonecas por aí, mesmo sem cabeça, enxergam melhor que você.

– Nomes, Nandinha – ele insistiu, ignorando a provocação –, eu preciso de nomes.

Ela, sem tirar os olhos do oficial, sentou num tronco que já existia ali quando ele era criança.

– Tonico…

– Xiiiii – interrompeu ele, nervoso e confirmando que estavam a sós, mas a velha não lhe de atenção.

– Tonico, você acha mesmo que tem alguém por trás disso? Se existe uma coisa que a gente não quer é ver seus carros zanzando. Se houvesse culpado, um pessoal daqui mesmo já tinha encontrado e dado um jeito. Você bem sabe.

– E você quer o que? – exaltou-se o policial. – Que eu acredite que os brinquedos se penduram sozinhos?

– Você nasceu aqui. Não é a primeira vez que vê algo que não se explica.

Pereira bufou.

– E como eu paro essa porcaria?

– Se Noé tentasse parar o dilúvio, filho, ele tinha era morrido afogado.

O delegado conteve a resposta que desejava dar, pois uma menina saiu da porta de Nandinha bem na hora, mirando-o. Tinha por volta de quatro anos, sugava uma chupeta amarela com estalos altos e vestia apenas uma saia gasta. Aninhava uma boneca negra de pano nos braços.

– A dela ainda tem cabeça – observou Pereira.

– Porque foi feita aqui – retorquiu Nandinha. – Eu mesma costurei, o que você devia imaginar. Te dei uma igual.

Ele abaixou a cabeça, constrangido. A velha, porém, se percebeu sua vergonha, preferiu não demonstrar. Em vez disso, levantou-se com dificuldade e acrescentou:

– Falando nisso, tenho um presente. – Entrou na casa e saiu dois minutos depois, carregando uma ovelha de pelúcia com um lacinho em volta do pescoço. – Tome, dê pra Isabela.

Pereira agradeceu e se retirou. Cansado, deixou seus homens cuidarem do resto e voltou para casa. Antes de guardar o carro na garagem, no entanto, jogou o presente de Nandinha na lixeira do vizinho, tal qual fizera com a boneca no ano passado. Sua filha não precisava saber que tinha uma bisavó no morro.

Ele sonhou com pomares de expressões felizes e acordou mais exausto do que se deitara. As horas do dia competiram para exaurir o que restara de sua energia por meio de ligações de representantes dos poderes estadual e federal, insatisfeitos com sua demora em prender os adolescentes responsáveis por aquela palhaçada. Apesar da permissão conferida aos oficiais para que afastassem qualquer pessoa com uma câmera e até mesmo quebrassem as máquinas, diversas foram as fotos do macabro espetáculo performado no alto do morro que circularam nos jornais. “Paraíso das Bonecas Mortas”, diziam as manchetes. Quando, de tarde, sentiu que teria um pouco de calma para cuidar finalmente do caso, espalhou-se a notícia de que os três jovens retidos foram soltos por ausência de provas e o telefone voltou a tocar.

Às seis da tarde, o delegado havia dado instruções objetivas: metade do regimento estaria alocado no Portal no Paraíso. Ninguém se moveria nas ruas sem que um policial visse, os menores estojos e bolsos de blusas seriam revistados.

Pereira, contudo, se juntaria aos homens apenas mais tarde, perto da meia-noite. Era aniversário de Isabela e ele o passaria em casa. Não que estivesse em condições de se dedicar emocionalmente à celebração, mas para sua esposa a presença bastava, e sabia que a filha sentiria sua falta. Assim, compenetrado por inteiro no caso, quando posou para as fotos lembrou as bonecas que sorriam apesar do choro pingando. E quando se reuniram na sala de jantar para cantar os parabéns, seus familiares e amigos, iluminados apenas pelas oito pequenas velas, pareciam também apenas rostos suspensos na escuridão. Quando enfim saiu a última visita, foi com alívio que ele voltou ao trabalho.

Mal sabia que passaria duas horas na periferia. Que, depois disso, receberia dezenas de ligações desesperadas, incluindo uma em seu número particular, de sua mulher, esta confusa e cortada por soluços. Que as viaturas deixariam o morro com seus postes imaculados para encontrar uma cidade coberta de brinquedos, o centro comercial, os edifícios de classe média e os bairros nobres vigiados por milhares de cabeças até pouco tempo atrás pertencentes a princesas, bailarinas, sereias, fadas e cantoras pop, algumas do tamanho de bolas de golf, outras maiores do que abóboras, todas loiras e alegres, vigiando o percurso da polícia com olhos surpresos e dentes escancarados.

Pereira foi direto para casa, encontrar a família horrorizada com os presentes daquela noite tragicamente expostos. E tão grande era seu medo, em parte com aquela bizarrice, em parte com a pressão de seus superiores no dia seguinte, que apenas quando amanheceu ele se deu conta de que uma única residência, em todo trajeto que percorrera, fora polpada.

Na lixeira de seu vizinho, embaixo da fiação intacta, uma ovelinha de pelúcia zelava carinhosamente pelo portão.

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As Nove Vidas de João Damião

Tinha acabado de completar noventa e dois anos, e poucos meses haviam se passado desde a boda de brilhantes, quando João Damião decidiu que queria o divórcio. Riram, a princípio, e em seguida o tomaram por louco, mas ele já de nada mais falava além da separação, escrita e registrada, segundo os conformes.

Mas por que, meu pai? perguntavam os dez filhos, ao que ele retorquia, do alto da idade:

Eu vou é aproveitar a vida!

Convenceram-no a passar por exames sob a promessa de que, na ausência de qualquer moléstia, deixariam de questionar sua escolha. Os médicos, para o pesar da família, atestaram que as faculdades mentais do velho eram impecáveis como as de um jovem de vinte anos, de modo que, mantendo a palavra, ninguém mais se intrometeu no assunto. “Antes tivesse a cabeça dum homem de cinquenta”, comentou uma das filhas, logo censurada pelo marido.

Foi assim que João Damião, depois de quase um século enraizado no sítio, fez o caminho inverso dos vizinhos aposentados que vinham buscar no campo o descanso negado pela cidade. Passou tudo o que tinha para nome da esposa, botou dois pares de cada peça de roupa numa sacola plástica e foi até a rodoviária.

Não aceitou que o seguissem.

Se eu quisesse companhia, eu convidava – enfatizou. E só Deus que saiba meu destino.

Vai é passar necessidade, meu pai – interpelara alguém.

Eu cá fiz minhas economias – foi a resposta enigmática, pois jamais se soubera de conta ou cartão de banco em seu nome.

A única coisa que aceitou, e provavelmente apenas para se ver livre de uma vez, foi um celular de números escandalosamente grandes. “Para as pessoas mais velhas”, explicara o vendedor ao neto que tivera a ideia, o único que realmente acreditou que o avô fosse fazer uso do aparelho. Mas era reconfortante a todos impressão reconhecidamente ingênua de que poderiam contatá-lo.

Dona Marciana, recém-divorciada, foi talvez a única a não fazer objeção, embora casada desde os treze anos e quase desprovida de qualquer memória anterior ao matrimônio. Assim foi, no entanto, muito mais por resignação do que por indiferença. Movida pelo que chamava de humildade, entendia que João Damião ali ficara ao longo de sete décadas porque assim lhe parecera melhor, não cabendo a ela, justo agora e pela primeira vez, questionar a vontade do homem. Também lhe parecia que, estando os dez filhos, os dezoito netos e os vinte e tantos bisnetos bem criados, o cidadão cumprira seu papel. E do ponto de vista prático, na verdade, a rotina de Dona Marciana, repetida impecavelmente há mais da metade do seu tempo neste mundo, em nada se alterou. Uma única boca a menos não diminuía a quantidade de comida sempre suficiente para alimentar o quarteirão, e os noventa e nove santos na parede de orações não lhe deram menor atenção, durante as oito horas de reza diárias, por ter passado a pedir mais pelo bem estar do ex-marido, onde quer que estivesse. Rogai por ele, que tem bom coração.

O resto da pequena cidade, no entanto, adotou com rapidez o conveniente dever de expressar o que a pobre senhora, segundo acreditavam, reprimia. João Damião era um porco safado, mulherengo, sem juízo, endiabrado e ingrato que largara a família na amargura. Se alguém levantasse a mão para observar que passavam bem, outras cinco se erguiam para lembrar que não se podia dizer quanto dinheiro ele levara escondido. E nesses casos, com efeito, o que não se pode dizer é sempre prova mais forte. Até mesmo entre a família, passado um mês, criou-se o hábito de chamar o patriarca de Malaquias, nome do gato que tivera Guilherme, um dos netos, e ao qual deram carinho e comida por seis anos, tempo depois do qual o felino se escafedeu, gordo, belo, saudável e sem a menor consideração.

Quando xingar coletivamente o velho na praça perdeu o brio, descobriram o prazer de cultuá-lo nos bares. Estava mais era certo, o sujeito. A vida é pra ser vivida. Mas com tanta idade? Pois sim, tinha força ainda, e não podiam esquecer que havia povoado boa parte daquelas terras. Nada mais justo, como ralou naquele sítio, devia gozar agora o tempo restante. Tinha vigor, o cabra, e pulso firme. Um exemplo. Um brinde a João Damião!

E as histórias foram ganhando volume. Elogios viravam justificativas, que levantavam questões, que criavam respostas, que exigiam circunstâncias, que demandavam coerência, que adquiriam lógica, fazendo girar a maravilhosa roda da admiração, que alimenta a si mesma e desconhece limites. Se as aventuras de João Damião tiveram início em prostíbulos nos arredores, logo a segunda e a terceira gerações da família se viram obrigadas a repetir para as crianças que “não, seu avô não pesca botos no rio Amazonas”, ou “não, seu avô não pilota balões na Capadócia, onde diabos é isso?”. Mas também os familiares, vencidos pela criatividade das narrativas, passaram a desconfiar da veracidade de algumas delas, principalmente depois que uma das ligações para o celular de números grandes foi enfim atendida, só que por um eletricista de Teresina.

Foi um senhor num caminhão que deixou comigo – explicou do outro lado. Trocou numa antena parabólica.

Antena pra quê?

Disse que ia revender na Colômbia.

Estava dada a permissão para se acreditar em qualquer coisa. João Damião cultivou flores na Europa e pilotou helicópteros para executivos em São Paulo. Apesar de não saber desenhar nem ler, tatuou famosos no Rio de Janeiro e vendeu livros em Buenos Aires. Era comum ver pessoas discutindo na rua para saber se ele primeiro adestrara lhamas no Peru ou cangurus na Austrália. Volta e meia, aparecia alguém na porta de Dona Marciana com uma revista nas mãos, apontando para a foto de um senhor loiro e de pele bronzeada, posando com elegância no convés de um iate em algum lugar do Caribe, querendo confirmar se não se tratava da celebridade local.

Mas como – replicava a senhora , se Joãozinho sempre foi preto?

Ah, é mesmo – desculpava-se a visita. Tinha até esquecido! mas nem todas saíam convencidas, dado que velho, entre uma e outra façanha, podia ter ficado branco. João Damião se tornara a figura responsável por realizar o sonho de todos e todas que não deixariam aquele lugar esquecido, e já nada lhe era impossível.

O próximo e inevitável passo foi a disseminação de seguidores. Encorajados pelo sábio que demonstrara nunca ser tarde demais, homens e mulheres pediram divórcio em todas as ruas da cidade, convencidos de que tal era o primeiro passo na direção de uma vida livre e cheia de emoções. Dos oito filhos casados de Marciana, sete se separaram, e doze foram os netos. O filho de um destes, inclusive, decidiu que seria advogado, repetindo com um largo sorriso no rosto que haveria de separar todo mundo.

A paróquia local se desesperou e entrou em contato com o Vaticano, por meio de cartas que nunca foram respondidas, nas quais se dizia que o demônio ali ameaçava o sacramento do matrimônio em todos os aspectos. O pecado de separar aquilo que Deus unira, todavia, foi atenuado quando os divorciados perceberam que não partiriam em proezas fantásticas, voltando a se casar, e os padres até mesmo informaram que a influência de João Damião era fenômeno suficiente para justificar o divórcio, de modo que as novas cerimônias podiam acontecer na Igreja, com a benção divina e custando trezentos reais cada.

Alguns anos após o ocorrido, os casais enfim refeitos e a imaginação para as histórias de João minguando, chegou o tempo de matar o sujeito. Tudo começou quando se ouviu a notícia de que em algum lugar ao sul uma roda gigante se soltara das ferragens e saíra girando parque afora, parando somente após atravessar o estado, deixando, contudo e felizmente, uma única vítima, o mecânico do brinquedo, senhor de idade muito avançada, origem desconhecida e cuja cabeça apresentava o diâmetro de um pneu devido ao sangue acumulado nos giros. O pessoal da cidade não titubeou: morte absurda assim só podia ser a de João Damião, e cuidaram do primeiro de quatro velórios que teve o herói.

Ele também foi amarrado aos trilhos de uma ferrovia no México por um cartel rival, baleado por um taxista em Salvador, cuja esposa de trinta anos o traíra com um velho banguela que vendia coco verde no Farol da Barra, e explodiu dentro de um carro trabalhando como dublê em Hollywood. Esta foi a última morte a ser velada, e ao que soube dela Marciana disse apenas “de novo, coitado?”. Também se diz que ele foi passado para trás por uma cigana, que aprisionou o segredo de sua longevidade em um rei de copas, motivo pelo qual os ciganos foram proibidos de entrar na cidadezinha, embora não os baralhos. Existe outra versão segundo a qual morreu após ingerir vinte e um litros de aguardente em uma competição de bebedeira, história que rendeu a construção de um alambique, mais tarde responsável por distribuir nacionalmente a famosa cachaça João Damião e pela desgraça de pelo menos uns cinco netos do homenageado. Por fim, sumiu abduzido nos morros de Minas Gerais, nos quais deixou somente o chinelo esquerdo, e nos bares até hoje se pode escutar gente dizendo que um dia o velho voltará, embora não se saiba se para trazer o conhecimento de outros mundos ou para buscar o calçado restante, pois nunca lhe agradou ficar de pé no chão e ademais devia fazer frio lá onde estava.

O único que nunca compareceu a nenhum dos enterros foi Guilherme, que por muito tempo continuou morando na casa da vó. Nas vezes em que a família se reunira para se despedir do avô, ou em outras raras ocasiões nas quais fora deixado as com os noventa e novo santos, aproveitara para observar a pá que ele escondia embaixo da cama, ainda suja de terra, e que João Damião utilizara muito tempo atrás.

Gato é um bicho orgulhoso – dissera então –, não gostam que a gente veja eles morrendo. Mas já enterrei o Malaquias, filho, segundo os conformes.

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Dois Tiros

“Atirar é comprar tempo” ditado de Zé Cartucheira.

Um tiro ecoou no brejo.

Um baque seco, seguido de um assovio sem fôlego, alguns pássaros voaram.

Já não era novidade para ninguém. Fazia anos que, várias vezes por dia, José Carlos, famoso Zé Cartucheira, disparava a espingarda aleatória da varanda de seu casebre. Cachorro, tatu, onça, tamanduá, vaca que não fosse sua, era uma sombra balançar no canto do terreno e o caboclo atirava, o dedo mais rápido que os olhos.

– Não é mira – dizia na praça, uma vez por semana – é instinto.

E rezava a lenda, de fato, de que às vezes ele dormia na cadeira de balanço e a arma seguia atirando, assustando quem se aproximasse. Garotos bisbilhotavam suas terras, curiosos, e não raro um saía mancando, chumbo na panturrilha ou na bunda.

– Gente eu não mato ainda – ele explicava ao vento, do alto da carroça. – Mas a Catarina se confunde – e ajeitava o cano torto nas costas. Arma com nome, sabiam todos, era caso de amor.

O delegado lavara as mãos. Que apenas não se importunasse o pobre do homem. Não era em vão, afinal, que se entocara lá onde nada findava nem começava. E acrescentava que nem a palavra de Deus devia valer ainda alguma coisa, no fim de mundo ao qual ele dedicava sua vigília. Quando a solidão é completa, imaginava o oficial, ela é tudo o que há para se proteger, e não seria ele, homem da justiça, que privaria Zé Cartucheira da única coisa que lhe restara na velhice.

E velhice de quanta data? Estaria nos setenta, oitenta? O velho passara do ponto em que o tempo se contava em anos. A cada dia ele recordava a vida inteira, o que valia como se dobrasse a idade. Ao mesmo tempo, há décadas que uma telha ou um pé de goiaba de sua propriedade não sofria mudança, o que era o mesmo que não ter passado ali o tempo. Zé Cartucheira estava assim: inchado de passado num presente sem futuro. Se tivera mulher, ninguém sabia e fora há muito. Se tinha filhos, decerto não lhes importava saber do pai. Sua existência se resumia aos tiros que dava da varanda, quem sabe se para recordar estar vivo.

O segundo tiro ecoou no brejo e penas brancas voaram.

Dona Rita, além do mata-burro depois do riacho, fez o sinal da cruz: que será que o velho matara agora? Mário, caseiro da capela no alto do morro, ficou de olho para ver se Zé Cartucheira iria pegar uma nova cruz no paiol. É que o velho, sempre que ia para a cidade vender alguns leitões, investia de imediato em dois únicos produtos: munições e cruzes.

– Duas vezes oito – pedia na loja de artigos religiosos. – Seis vezes dez – pedia na loja de itens de caça.

Teodoro, que vendia o chumbo, certos dias não se aguentava.

– Vai pra guerra, Zé?

O cliente retornava, derradeiro:

– E já houve quem precisasse buscar uma? – cuspia. – A gente nasce nela.

– Mas eu mesmo, que vendo armas, nunca precisei atirar.

– E é por isso que vai morrer antes – proclamava Zé, e voltava para o sítio, benzido e munido.

Ocasionalmente, após um disparo alto, andava até o paiol, pegava sua pá, uma cruz, e abria um buraco no pasto ao lado da casa. Ajeitava a cruz na terra, levava o chapéu ao peito e ficava um minuto em silêncio. Tinha já mais de cem cruzes dispostas diante da janela do quarto, em fileiras equidistantes. Os devotos, ao que saíam da missa domingo de manhã, caso virassem para o lado de suas terras, viam um pequeno e macabro cemitério. Alguns esperavam com ansiedade o dia em que a morte viria buscar Zé Cartucheira, para profanar os túmulos e desvendar o segredo, mas ao velho, que era só pele, osso e bigode, não faltava saúde. Por isso, lá da capela, sempre que ouvia um tiro, Mário corria para acompanhar Zé de longe, esperançoso de avistar um cadáver, mas nunca enxergava nada. Seriam passarinhos, invisíveis pela distância?

Naquela manhã, Zé Cartucheira deu o tiro de supetão. É provável que cochilasse. Levantou, ajeitou as calças e andou com calma até o brejo além da horta. Molhado, sujo de barro e sangue, um anjo se arrastava para a margem.

– Esses são modos de receber um mensageiro de Deus, José? – a criatura perguntou com calma, a voz aplainando a água.

– E pelos fundos é modo de se entrar em terreno alheio?

– José – censurou o anjo, sem erguer o tom. – Você sabe que teve seu tempo. Venha comigo, seus pecados serão perdoados.

O mato desconhece rodeios, a idade ignora dúvidas. José olhou o horizonte; pensou, respirou e limpou a garganta. Depois ergueu a arma.

– Se eu não for, não preciso de perdão.

Um lampejo, a carabina se desfez em luz. O anjo, nobre e orgulhoso, se elevou sobre o pasto, cintilante e absoluto como o céu. As pernas do velho vacilaram. Toda forma de beleza é uma forma de autoridade.

Eis que soa um segundo tiro: penas brancas se perdem nas nuvens, o anjo tomba sem vida. Zé o arrastou até o pasto ao lado de casa, abriu-lhe uma cova, ajeitou seu corpo divino entre minhocas, raízes e esterco seco, depois buscou uma cruz no paiol, com que decorou o novo túmulo. Levou o chapéu ao peito e fechou os olhos.

De volta à varanda, outro anjo o aguardava sentado, uma cartucheira no colo.

– Não adianta, Zé. Eu o perdoei, mas os outros não irão. Quando chegar sua hora, seremos os dois julgados.

– Viver é adiar o que não tem jeito – explicou Zé, recolhendo a arma. – E atirar é comprar tempo, Catarina.

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Encruzilhada

Sua vó já contava, há muito tempo, com a voz fraca sustentada pelo eco de vozes mais fracas de velhos mais velhos, a história de Quosani, protetora do rumo. Espírito de uma antiga rainha Somali, Quosani encarnou em uma jovem Iorubá e foi trazida a bordo de um navio negreiro. Aqui, libertou-se num pau de arara e se pôs a correr de um oceano a outro: esperava um dia voltar à África. Com cabelos de chamas azuis, o vestido de espuma do mar, o lábio da cor da lua, ela percorre até hoje pastos e serras, agreste e cerrado, charcos e mangues. Longe das cidades, tarde da noite, às vezes é possível vê-la riscando o sertão. E se um viajante para em uma encruzilhada, perdido e cansado, e lhe roga socorro, Quosani, para que ninguém compartilhe seu sofrimento errante, aparece em auxílio, explicando o caminho desta terra que já conhece inteira. Por isso, meu neto, quando estrada houver demais, é a ela que deve chamar.

Foi assim que, naquela madrugada, longe de casa, há dias caminhando sem ver alguém, e temendo que viesse a ver, pois eram muitas as madeiras que dali saíam sem permissão e sem testemunha, a voz de sua vó retumbou, vindo da estrada batida, das árvores retorcidas, das estrelas que cintilavam sem iluminar muito mais que sua mão diante do rosto, a marca da aliança branca, branca, branca. E ele caiu, o joelho agradecendo o descanso, o sapato bom estourando. Há quanto tempo andava? Não sabia. A escuridão se alimentava, com perversa lentidão, de porções cada vez maiores de sua vontade e de sua memória. Se tentava fugir, qualquer direção era a mesma e só o levava, ao mesmo tempo, para mais longe de onde partira e de onde queria chegar, se é que recordava o destino.

– Eu não sei para onde vou! Quosani, eu não sei…

Eis que ela surge, a pele negra refletindo os astros, o fogo azul clareando a mata, o rosto infausto que desconhece o lar.

– Aqui não é uma encruzilhada, filho. Tens apenas um caminho a seguir.

– Eu sei – chora ele, encharcando a camisa puída. – Eu sei…

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Acomodação

Um dos mais interessantes detalhes acerca da chuva é que ninguém nunca soube dizer o certo quando ela começou. Seu Joaquim e Dona Ilza simplesmente acordaram com a torrente a lhes lavar o leito. Ela diz, às vezes, que notou primeiro, levantando-se assustada com uma grande gota que lhe invadira a narina. Ele, por sua vez, pensa que não, que foi descobridor isolado do fenômeno assim que abriu a boca num bocejo e quase se afogou. Mas mantém para si a certeza, desinteressado nesse tipo de conflito.

É importante apontar o fato antes, pois poucos se importam com ele quando se conta que o casal encontrou o sol raiando fora de casa. Chovia era dentro mesmo, o teto cinza que assustava.

Foi uma gritaria desgraçada, a de Dona Ilza. Não só proferida ao despertar encharcada, mas ao longo de toda a manhã, resultado da indignação que não lhe cabia no corpo miúdo e que abafava sem esforço os ruídos da escolinha ao lado. Jesus, Maria e José, Santa Rita de Cássia, Virgem de Guadalupe, Santo Padre Cícero, a mulher fez chamada oral no céu. Entidade alguma, porém, desceu em seu amparo, cabendo a Joaquim despejar na rua o excesso do transbordamento.

— Não rende — queixava-se ele, descansando o balde.

— Valha-me, Senhor, misericórdia — lamentava ela.

Chegou, inclusive, a chamar o Padre Astolfo, dirigente da paróquia local que prontamente atendeu às preces da devota, visitando a casa munido de escrituras e água benta. O livro se desfez mal ele pisou a sala, as páginas transformadas num caldo cinzento e viscoso. O sacro líquido, a despeito do vigor com que fora salpicado, diferença alguma exerceu em meio à tempestade domiciliar, carregado como só mais um pouco de água na enxurrada que corria garagem afora. Empenhado em preservar o brio do dever cumprido, o sacerdote se retirou com uma pequena cascata gotejando do queixo erguido

Seu Joaquim pediu à esposa que passasse o restante do dia no mercadinho que tinham na esquina, que ele daria um jeito. Desfrutava de um vasto currículo, tendo já sido pedreiro, marceneiro, bombeiro, eletricista, padeiro, frentista e diversas coisas mais. Não que sua experiência em cada campo fosse das maiores, suas pretensões em cada profissão não pareciam exceder um ano de aprendizado, mas ele contava, de qualquer forma, com um vasto repertório para a solução de problemas cotidianos.

Passou horas na laje, curvado sob as telhas procurando uma infiltração, contudo foi convencido de que o problema era outro por uma trovoada intempestiva que chacoalhou o telhado, de baixo pra cima. Tentou também expulsar as nuvens ligando ventiladores nas janelas, porém um raio estourou perto da lavanderia e queimou os equipamentos. Quando Ilza regressou, deu com o marido na sala assistindo televisão, guarda-chuva numa mão, cerveja na outra.

A imagem a chocou tanto, que ignorou o segundo teto que Joaquim improvisou com lona, pregos e fio de varal, e ao qual conferiu o formato triangular de uma capelinha, de modo que se podia caminhar para qualquer cômodo da casa entre duas finas cortinas de água. Foi direto para o quarto, onde chorou de raiva até pegar no sono.

Na manhã seguinte, revigorada, saiu em busca de qualquer um cujos conhecimentos, mesmo que vagos, pudessem ajudá-la, o que acabou por incluir até um fiscal da prefeitura e o professor de ciências da escolinha do bairro. E cada vez que apresentava a impertinência pluvial que desrespeitava seu lar a um novo potencial perito, encontrava o marido envolvido em um projeto diferente e sem cabimento, desde um sistema precário de irrigação para as flores do corredor até uma tubulação tosca para fornecer água aos cachorros no quintal.

Quando Ilza chegou com um encanador, por exemplo, Joaquim falava de construir um moinho.

— Para que moinho, criatura?

— Dá pra moer paçoca — arriscou o encanador, empolgado, e Ilza o mandou embora.

Dia após dia, o dilúvio, se alimentava a angústia dela, regava a criatividade dele. Cada trovoada anunciava uma mal compreendida vantagem.

— Não tem mais mosquito em casa — comentava com os vizinhos —, a gente não passa mais calor, a garagem tá sempre limpa. E a conta de água, rapaz, veio uma mixaria!

— Como que pode, homem? — descreditava a esposa. — Olha só pra isso!

— O que não tem solução, Ilza — sentenciava ele, satisfeito com a clareza da lógica —, não é problema.

Uma tarde, então, como em tantas outras, ela perdeu a paciência.

— Você é um acomodado! — acusou ao marido, aos berros, mas a ofensa, que pouco deveria significar diante de um histórico imenso de outras normalmente piores, e também da pretensão de um largo futuro as repetindo, despertou nela algo inusitado. Ilza percebeu que não se lembrava de já ter utilizado uma palavra com tamanha perícia, sequer sabia, ou parara para pensar, que uma palavra pudesse expressar tão bem suas emoções. Um alívio incomparável a preencheu. Finalmente solucionava a equação que tentava resolver secretamente há dias. A frustração que a contaminava foi diluída e levada embora como a bíblia do padre Astolfo.

É que havia, na cozinha de dona Ilza, um armário seu, só seu, feito sob encomenda para se encaixar perfeitamente no cômodo, respeitando milimetricamente a disposição dos eletrodomésticos, da janela, dos enfeites, e isso porque um arquiteto fora até sua casa, estudara o ambiente, tirara as medidas e projetara o móvel para que se tornasse aquela peça única e ideal. E, agora, parecia a Dona Ilza que contratara outro profissional, um gramático, um linguista, sabe-se lá o que, a fim de estudar seu marido, medir sua altura, calcular seu peso, esboçar seus traços numa prancheta, pois tais trabalhos demandam o uso de prancheta, e que depois de muito refletir, considerando todos os dados colhidos, entregou a palavra sob encomenda, única e ideal, que descrevia seu Joaquim: acomodado.

Naquela noite Ilza não dormiu. A eficiência expressiva do termo ganhava maiores proporções conforme mais pensava nele, constituindo uma explicação didática e inequívoca de seu matrimônio inteiro, o motivo de o marido não parar num emprego, de o mercado não ir para frente, de não estarem numa casa maior, num bairro melhor, com um carro novo. E pensando bem, pensando bem, não só Joaquim, mas tudo o que via de errado, em alguma medida, era por acomodação, o aluno que não estuda, a funcionária que não varre a loja, os devotos que não vão à missa, e também os que vão, mas não praticam porque acham que é suficiente, pois tem muita gente assim, ah se tem!, ela de repente descobriu-se rodeada de acomodados. E ao fim da noite, cativada pela eloquência dos raciocínios que substituem o sono, imaginava já que talvez até Deus, que Ele a perdoasse, caso não, mas que até Deus se pautava na acomodação de cada pessoa como critério fundamental de seu julgamento, e assim não cabia a ela, fosse para seu bem neste mundo ou no outro, permanecer em semelhante companhia.

Na manhã seguinte, jogou as roupas molhadas dentro da mala encharcada e foi morar com a irmã.

O esposo, julgando o gesto típico do temperamento de Ilza, deu pouca importância, voltando sua atenção para a fonte que construía, com anjinhos que cuspiriam água da chuva com graciosidade permanente. Uma semana se passou, enfim, e depois outra, e nada de Ilza.

No começo foi difícil para seu Joaquim, principalmente de madrugada, quando o tempo piorava e a tormenta arremessava gotas por baixo de seu teto de lona, batia portas e derrubava objetos: aumentava sua solidão não ouvir reclamações sobre as coisas caindo. Mas como podia se culpar, se nada podia ser feito e se, apesar dos percalços, aquela tempestade particular trazia também benefícios? Além do mais, nem seus esforços em diminuir o prejuízo da chuva nem os para aproveitá-la foram alguma vez reconhecidos, e Joaquim, verdade seja dita, por mais que tentasse, falhava em relembrar um elogio que a esposa já lhe tivesse dirigido.

A crescente certeza de que nunca recebera o tratamento condizente com sua devoção enquanto marido fez com que, aos poucos, se recuperasse. As reformas que continuou realizando na casa, que nos primeiros dias refletiam seu desejo de ter algo para mostrar a esposa, quando ela regressasse, passaram a significar, em vez disso, um meio de Joaquim afirmar para si mesmo o quando Ilza não o merecia. As calhas, os ralos, os aquários e a cachoeirinha no banheiro nada demonstravam senão uma rigorosa dedicação ao lar, em relação à qual não fazia sentido que a ingratidão de Ilza tivesse passado impune. A menos que ele fosse incapaz de impor algum respeito. E a menos que fosse, compreendeu um dia, extremamente acomodado.

Decidido a resgatar seu valor, Joaquim deu início a uma retrospectiva cuidadosa do finado relacionamento, preocupado em contabilizar, anotando detalhes como data, motivo e intensidade, cada desfeita, ofensa ou maltrato, cada favor ignorado ou gesto desprezado. Joaquim compôs uma lista enorme, que duplicava toda noite e que recordava toda manhã, incendiando uma indignação que ele suplantava com novas ideias e reformas, recurso que o levava a passar dias sem comer ou falar, apenas batendo pregos. Era uma raiva que armazenava, portanto, como quem compressa uma mola, sonhando despejar sobre Ilza, quando surgisse a oportunidade, a imensidão de respostas reprimidas por décadas, tão grande que, certa manhã, quando se pôs a relembrar tudo o que precisava dizer, terminou somente na hora de dormir.

Foi por esses dias que Ilza retornou. Parou um segundo na garagem, malas na mão, encarando o senhor de meia idade que lixava as ripas do futuro moinho. Este tampouco lhe dirigiu palavra, limitando-se a abaixar a lixa para ver a mulher que adentrava a chuva. Não trocaram mais do que o olhar envergonhado daqueles que aprendem que um dia a tristeza, desde que familiar, vira a melhor opção.

Entre a casa repaginada e o tamborilar eterno da chuva, logo foi para o casal como se a rotina jamais houvesse sido comprometida. A única mudança após a volta de Ilza, e da qual Joaquim às vezes se ressente, é a ausência dos anjinhos cuspidores na garagem, dos quais ele foi obrigado a se desfazer porque a esposa mudou de religião. Mas Joaquim nunca reclama, desinteressado nesse tipo de conflito.

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O Cultivador de Ausências

Se eu tenho uma história pra contar? Meu filho, você acha que a gente vem pro
bar pra que? Beber? A cerveja, veja só, apenas lubrifica a goela, essa é que não para.
Minha vida é história, mas tem uma, sim, que é mais que as outras. E você, já que faz
questão, anote aí. É inclusive bom porque todo mundo me chama de louco, e quem
sabe assim, escrita, minha vivência faça mais sentido. Não é de hoje que palavra no
papel vale mais que dita, não é?

Ocorre que sou apaixonado, de paixão forte mesmo, arretada, por três mulheres.
Pouca coisa? Digo além: faz catorze anos que amo as três. E acrescento: falo é das
minhas três esposas, agora ex, ou êzes? Não importa. Finalizando: eu as deixei, todas
elas, de propósito. Ô Tumbica, traz mais uma que aqui vai render.

Foi assim o sucedido. Meu primeiro casório era bom, sabe? A Carmem, é o nome
dela, fazia de um tudo, cozinhava, passava, limpava a casa, tratava os pequenos, nunca
tive defeito que lhe botar, e olha que sou imaginativo. Pois bem, entrou ano, saiu ano,
eu fui começando a sentir falta de algo. Não de carinho, que sobrava a ela. Nem de
companhia, pois Carmem, quando podia, subia no caminhão e atravessava era qualquer
rodovia. O ponto é justamente que eu não sabia que falta era, entende? Numa noite sim
e na outra também eu deitava já sabendo como ia ser o dia seguinte, e o outro, e o
próximo; o mundo tinha virado a palma da mão. Um dia eu atinei: me faltava era eu me
apaixonar. Decepei foi o braço todo. Ô, Tumbica, obrigado, querido.

Foi difícil. Eu não sabia me justificar e Carmem me seguia, perguntava quem era
a outra, dizia que ia mudar isso, aquilo. Não era culpa dela, coitada, mas fazer o quê?
Eu, do lado dela, ia me desfazendo de tão completo. Precisava de uns buracos em mim,
pro vento passar de noite, me arrepiar. A vizinhada aqui toda me excomungou. Que
deixar uma mulher como Carmem, diziam, era insanidade. Veio até o pastor saber que
passava. O senhor queira me desculpar, expliquei-me, mas perfeição, antes do paraíso,
não é pecado?

O tempo andou e conheci a Lúcia. Senti um comichão assim que deitei olho nela.
E Pai Nosso, como dançava! Era uma requebradeira que me dá suadouro até hoje.
Preciso até de um gole. Pronto. Nossa, a Lúcia era um espetáculo. Naquela mesma
hora eu pensei que era ela que eu buscava, que necessitava então de mais nada. A
gente se casou foi coisa de poucos meses depois. Um fogo, rapaz, que parecíamos
casal de adolescente. Mas aí, talvez no mesmo ano, já não lembro, veio a notícia que
realmente aclarou minha natureza: Carmem estava noiva.

Veja bem, doutor, pobre não viaja. A gente cria raiz e, quando tira do chão, é
porque tombou. Se pegar essa avenida aqui, olha, e andar quinze minutos, vai passar pela casa das minhas três esposas, onde moram desde miúdas, tirando o tempo que
passaram comigo. Eu já ouvia rumor de uns namoros, coisa que um compadre ou outro
segredava, mas o noivado veio foi reto, e à galope, deu com tudo na porta de casa. Eu
fiquei possesso. Ridículo, né? Eu sei. Eu a larguei, não queria mais nada, estava com
outra, que tinha que me meter?

Tumbica? Mais uma, por favor? Doutor, saber daquilo me doeu um tanto, mas
um tanto, que não sei descrever. Anote aí que foi muito. Era uma raiva que ia crescendo,
ia criando corpo, expandindo. E eu, pra dar vazão e pra incentivar, ia recordando o
primeiro matrimônio, as conversas, os passeios. Logo chegou um ponto em que a
memória não bastava; eu comecei a imaginar o que faríamos se ainda juntos. Ver novela
abraçados, fim de semana na estrada, essas coisas. E o surpreendente: encontrei-me
apaixonado pela ex-mulher. Agora que não a tinha, amava-a mais do que antes, quando
juntos, e mais do que Lúcia, atual esposa.

No mesmo passo desse sentimento descabido, meu casamento ia desandando.
No começo, foi positivo meu ódio, que eu descontava na cama. Mas o amor por Carmem
ia atropelando o por Lúcia e eu, então ainda ignorante, pensava que isso significava
algo errado. Se eu tentava pensar só em Lúcia, me batia era aquele quebranto na alma,
o coração ficava de novo desabitado, miúdo. Tudo o que fazíamos já não era tão bom; o
que fazíamos pela primeira vez, chato. Intenso mesmo, forte de arrebentar um caboclo
ao meio, eram aqueles planos que não eram nem seriam praticados. Hoje posso
confessar que agi na experimentação; suspeitava que o efeito se repetiria. Se ainda não
entendeu, larguei Lúcia.

Quando tomei a decisão, comecei uma rotina desenfreada de entregas, no
estado todo. Parava em casa uma vez por semana, pra mudar a troca de roupa, e partia
em seguida. Isso por dois anos ou mais. O que? Por que não procurei Carmem? Ora,
doutor, que assim me parece que não vai entender é nada! Eu fui casado com ela,
esqueceu? Sabia como seria a vida ao seu lado; sabia, principalmente, que não a
amaria tanto quanto estando longe. Um dia, dormindo com ela, acordaria sem ver
sentido na mulher ali deitada. Sozinho no meu quarto, ela é eternamente perfeita. Por
isso zanzei por meses: quando voltei, Lúcia estava de rolo com um qualquer de fora.
Primeiro quis matar meio mundo. Mais tarde, como premeditado, fiquei louco por ela.

Tumbica! Meu jovem, aquela última, pra fechar? Onde eu estava? Ah, sim. Meu
terceiro matrimônio. Foi o mais tranquilo. Eu já havia entendido o esquema. Quando
decidi casar com Silmara, a partir do primeiro momento, pensava já no depois. Eu a
amava, mas amava, mais do que tudo, pensar no quanto a amaria quando a deixasse.
Caminhávamos na praia e eu pensava em revisitar as ondas para sentir sua saudade.
Como um jardineiro que planta pensando na poda. Separei dela foi ansioso.

Nenhuma delas chegou a casar, no fim. E as três, juro, vieram já me procurar,
mais de uma vez cada. Eu, do meu lado, fujo que nem o diabo da cruz. Tenho medo,
compreende, que a presença delas estrague o sentimento? E é por isso que me gritam
maluco por aí, que gosto de sofrer, repetem. Mas é que com uma delas, qualquer uma,
viria o dia em que estaria vazio. Assim, agora, a ausência delas me enche por inteiro,
há catorze anos. São as coisas. Uma vez me disseram que viver é ir perdendo aquilo
que a gente ama. Penso que não; viver é seguir amando aquilo que a gente vai
perdendo.

Agora, se me perdoa, doutor, preciso ir. Tenho que contar a elas, antes de
dormir, e tintim por tintim, que um sujeito importante da capital veio registrar minha
história. Além do mais, a cerveja, depois que lava muito a goela, começa a escapar
pelos olhos, e não faz bem…

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A Casa dos Espelhos

Doze anos, era a idade que tinha quando entrou pela primeira vez na casa dos espelhos. Uma construção abandonada, na beira da antiga rodovia, mas de tal maneira coberta pelas árvores que praticamente não se podia vê-la do asfalto. Mais tarde, descobriria se tratar de uma vidraçaria diante da qual o proprietário decidira criar também uma loja, para vender as peças que, a julgar pela natureza exótica, criava por prazer e com evidente preocupação artística.

Claro que não era a primeira vez que via seu reflexo. Até aquele dia, porém, sempre foram os espelhos que haviam olhado para ele. Mostravam-lhe o que ver, um instrumento técnico e de precisão, que pouco se distinguia do trema ou do prumo utilizados pelo pai e pelos tios quando erguiam muros, se bem que nem de longe tão útil. Lembrava-se de ter encontrado, visitando uma casa com o pai na cidade, um deles pendurado numa grande sala, e o estranhamento que o acometera então fora imenso, pois até emoldurado o objeto estava, e ricamente, feito um quadro, e se enquanto ferramenta sua utilidade lhe escapava, como decoração o artigo desafiava sua compreensão.

Mas a casa dos espelhos redefiniu sua relação com a peça. Ali, os artigos se encontravam desprovidos de sua exatidão presunçosa, desinteressados no rigor. Variavam desde um pequeno círculo de algumas polegadas até um grande retângulo que quase cobria uma parede, e não havia dois exemplares idênticos, apesar de serem todos igualmente velhos, fato que concedeu ao garoto a impressão de que o cômodo comportava utensílios cansados após anos de trabalho, talvez décadas, aos quais importava qualquer coisa que não a reprodução perfeita exigida deles antes da aposentadoria. Livres para exibir a imagem que bem lhes apetecia, o menino se via em cada um de uma forma diferente, ora baixo, ora extremamente magro, de orelhas infladas, de cabeça espichada, quadris redondos, pés enormes, e havia até mesmo um espelho que lhe conferia formato de ampulheta.

Deteve-se diante de um que pouco deformava seu reflexo, a não ser por deixá-lo ligeiramente mais alto. Há tempos se imaginava maior, porque os colegas tinham ultrapassado sua altura, e deixou-se admirar com satisfação pelo jovem que lhe sorria quatro passos à frente.

Quando entardeceu e não pôde enxergar mais do que uma sombra no centro da moldura, recordou que tinha uma casa onde era esperado. Correu para fora, montou a bicicleta e caiu. Teve a impressão de ter jogado peso demais com a perna, mas sem se lembrar de tê-lo feito, e confuso repetiu o movimento. Parou quando o guidão lhe pareceu mais longe do rosto do que deveria, assim como tudo o que estava a sua volta. Foi então que mirou os próprios pés e percebeu que a barra da calça encurtara uns bons centímetros: ele tinha o tamanho que vira no espelho.

Desnecessário descrever seu assombro, o que protege a realidade é o consenso. Todavia era seu corpo, o que o privava da mais acessível das defesas que é a dúvida. Restava-lhe, portanto, admirar sem moderação a sua sorte e aproveitar a nova estatura, exibi-la o quanto antes e a quem pudesse. Não contava com um segundo mistério: ninguém notou a diferença. Não por desatenção, e sim porque ela, aparentemente, não existia. De repente, era como se desde sempre fosse maior.

Pela necessidade de compreender o que acontecera e para explorar os limites daquele extraordinário fenômeno, na tarde seguinte, como em muitas outras, já se pode imaginar, ele foi à casa dos espelhos. Vislumbrou-se diante de um reflexo que o tornava outra vez menor, porém atribuía-lhe ombros mais largos, e voltou para casa, constatando que a imagem contemplada ficara novamente impressa em seu corpo e que, tal qual suspeitara, pessoa alguma sugeriu estranhamento.

Daí em diante, tornou-se frequentador assíduo do lugar. Diariamente, ao entardecer, dedicava alguns minutos ao cômodo abandonado, não só desejoso por aprimorar suas feições, mas também curioso por desvendar todas as possibilidades encerradas nas centenas de espelhos ali guardados, tantos que as modificações eram incontáveis. Com efeito, eram praticamente infinitas, concluiu depois, quando descobriu que podia ver seu reflexo no espelho através de outro espelho, e assim por diante, embora o resultado fosse gradativamente mais bizarro de acordo com a quantidade de objetos utilizados e mais valesse observar-se em um único. Dispondo de tamanho repertório, ele não tardou em apresentar cada medida na exata proporção almejada, apesar de suas preferências, como as de qualquer pessoa, estarem sujeitas a mudança, obrigando-o a retornar constantemente e criando nele um vínculo vitalício com o fabuloso mausoléu.

Engana-se, entretanto, quem pensa que sua história com a casa dos espelhos se resume a própria aparência. Em verdade, analisando o balanço de sua vida, a quantidade de visitas que dedicou ao lugar preocupado com sua fisionomia é irrisória. O local tinha muito mais a lhe oferecer, como soube na véspera de uma prova para a qual nada se preparara, ainda no colegial. Preocupado com o desempenho medíocre, mal conseguia se concentrar no queixo que aspirava aumentar, quando, olhando decididamente dentro dos próprios olhos, enxergou, em vez do rosto mais angular, um jovem que dominava a matéria a ser cobrada. Menos do que uma transformação, foi uma revelação, um aviso do espelho de que ele, a despeito de nunca ter atentado, dispunha de um vasto conhecimento sobre o assunto, e por isso não se surpreendeu quando o professor, em cuja disciplina ele nunca se destacara, entregou-lhe, na semana seguinte, uma prova em que figurava a mais natural e previsível das notas máximas.

Foi o primeiro passo de um longo caminho de autoconhecimento, no qual ele se descobriu dotado de uma inteligência primorosa, um orador fenomenal, um vendedor irresistível, artista brilhante, atleta invencível, além de tantas qualidades mais, tão numerosas quanto eram os espelhos em seu esconderijo mágico. E toda nova característica adquirida configurava menos uma metamorfose do que uma carinhosa recordação. Era como se ele chegasse aos espelhos e perguntasse “o que sou mesmo, agora?”, “um excelente escritor, senhor”, “ah, sim, claro!”, embora já sempre consciente da resposta, justamente porque precisava ouvi-la. E essas mudanças de caráter emocional ou psicológico dispunham de procedimento ainda mais simples do que as físicas. Enquanto estas contavam com um espelho ideal para cada finalidade pretendida, para as outras bastava ele mirar-se desejoso por um atributo, em qualquer um dos espelhos, que o obtinha de imediato, repentinamente antigo e duradouro, desde que, eis a única exigência, fosse para tornar-se algo que ainda não era.

Foi prefeito por vários mandatos, comprou uma rede de postos de gasolina, criou cavalos de raça e patrocinou pilotos de corrida de caminhões. Casou-se quatro vezes, teve seis filhas, três filhos e metade dos imóveis de sua pequena cidade. Com seus infindáveis recursos, poderia ter conquistado muito mais, talvez nem existissem limites para seus empreendimentos. Apesar disso, preferiu manter-se na região, de um lado por lhe faltar ambição, de outro exatamente para não se afastar da casa dos espelhos.

Ocorreu-lhe, certa vez, a ideia de levar um dos objetos para casa, porém deteve-se ao imaginar as consequências de possíveis propriedades que desconhecesse sobre o lugar. E se o encanto funcionasse mediante exclusividade, por exemplo, e alguém mais encontrasse o espelho, desfazendo, assim, tudo o que alcançara? Pelo mesmo motivo, fazia-se imprescindível que ele mantivesse a antiga loja sob vigilância, evitando que outros a adentrassem ou vissem, tarefa que seu cargo político facilitava. De qualquer modo, com o passar dos anos, descobriu que espelhos fora do seu refúgio também eram capazes de provocar pequenas modificações em sua personalidade, desde que ele as mentalizasse com determinação. O fato o convenceu de que o feitiço da vidraçaria não consistia nos objetos, mas no aprendizado de seu pleno aproveitamento.

“Não é o que você vê” explicou para a filha caçula, no dia em que ela se casaria, “é o que você quer ver”, embora o tenha dito em tom jocoso, ciente de que a jovem não partilhava do seu conhecimento.

Naquela mesma hora, no entanto, deu-se conta de que não queria ver as próprias sobrancelhas, grossas, mais retas e assimétricas do que se lembrava. Como faltavam horas até o casamento, decidiu passar rapidamente na casa dos espelhos. Um pneu estourado, contudo, acabou por arremessar seu carro contra uma velha mangueira alguns quilômetros antes.

Acordou no hospital, dias depois, imobilizado por faixas, gesso, pinos, velhice e medo. Antes mesmo de ouvir o diagnóstico dos médicos, ocorreu-lhe que, entre seus espelhos mágicos, algum poderia reverter seu estado, motivo pelo qual tentou convencer os familiares a tirá-lo do leito e acompanha-lo até um determinado local na estrada capaz de curá-lo. Ninguém lhe deu ouvidos; consideravam seu rogo um delírio resultante do choque, o qual deviam ignorar sob olhares condescendentes. Sem alternativas, viu-se obrigado a vencer o medo de revelar seu segredo e telefonou para a prefeitura, onde acionou os contatos possíveis, contou sobre o esconderijo e requisitou a busca imediata dos artefatos.

Foi um dia agitado, com policiais, bombeiros e jornalistas circulando pela rodovia que há anos quase ninguém usava. Percorreram por horas a velha estrada sem encontrar vestígio do suposto cômodo camuflado pela vegetação. Havia sempre ao menos um oficial em contato com o prefeito, para confirmar as coordenadas e a aparência da construção, assim como as datas e circunstâncias em que ele a havia visitado, informações recebidas com crédito decrescente. Por fim, tão enfático e rigoroso ele foi com os especialistas, estes, incrédulos mas obedientes, aprofundaram as buscas em uma zona de mata fechada à margem do asfalto, na qual não podiam crer que alguém já houvesse posto um tijolo.

Mais impressionante foi que, quando finalmente os esforços atingiram resultado, o prefeito sumiu. Os funcionários do hospital, a família e mesmo a equipe de segurança, contando com câmeras de monitoramento, falhavam em explicar seu paradeiro. Os veículos do prefeito permaneciam guardados, as empresas de transporte alegavam não lhe ter prestado serviço e as chances de que aparecesse um único cidadão testemunhando tê-lo visto se esvaíam com rapidez. Equipes de resgate foram montadas, uma grande área foi coberta, inclusive com helicópteros de cidades vizinhas, porém sem êxito. Terminado o prazo previsto por lei, foi dado por desaparecido. Assim, os bombeiros nunca puderam lhe dizer que, no lugar indicado, acharam somente uma ossatura que o exame forense atribuiu a um garoto morto por volta dos doze anos.

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