A Casa dos Espelhos

Doze anos, era a idade que tinha quando entrou pela primeira vez na casa dos espelhos. Uma construção abandonada, na beira da antiga rodovia, mas de tal maneira coberta pelas árvores que praticamente não se podia vê-la do asfalto. Mais tarde, descobriria se tratar de uma vidraçaria diante da qual o proprietário decidira criar também uma loja, para vender as peças que, a julgar pela natureza exótica, criava por prazer e com evidente preocupação artística.

Claro que não era a primeira vez que via seu reflexo. Até aquele dia, porém, sempre foram os espelhos que haviam olhado para ele. Mostravam-lhe o que ver, um instrumento técnico e de precisão, que pouco se distinguia do trema ou do prumo utilizados pelo pai e pelos tios quando erguiam muros, se bem que nem de longe tão útil. Lembrava-se de ter encontrado, visitando uma casa com o pai na cidade, um deles pendurado numa grande sala, e o estranhamento que o acometera então fora imenso, pois até emoldurado o objeto estava, e ricamente, feito um quadro, e se enquanto ferramenta sua utilidade lhe escapava, como decoração o artigo desafiava sua compreensão.

Mas a casa dos espelhos redefiniu sua relação com a peça. Ali, os artigos se encontravam desprovidos de sua exatidão presunçosa, desinteressados no rigor. Variavam desde um pequeno círculo de algumas polegadas até um grande retângulo que quase cobria uma parede, e não havia dois exemplares idênticos, apesar de serem todos igualmente velhos, fato que concedeu ao garoto a impressão de que o cômodo comportava utensílios cansados após anos de trabalho, talvez décadas, aos quais importava qualquer coisa que não a reprodução perfeita exigida deles antes da aposentadoria. Livres para exibir a imagem que bem lhes apetecia, o menino se via em cada um de uma forma diferente, ora baixo, ora extremamente magro, de orelhas infladas, de cabeça espichada, quadris redondos, pés enormes, e havia até mesmo um espelho que lhe conferia formato de ampulheta.

Deteve-se diante de um que pouco deformava seu reflexo, a não ser por deixá-lo ligeiramente mais alto. Há tempos se imaginava maior, porque os colegas tinham ultrapassado sua altura, e deixou-se admirar com satisfação pelo jovem que lhe sorria quatro passos à frente.

Quando entardeceu e não pôde enxergar mais do que uma sombra no centro da moldura, recordou que tinha uma casa onde era esperado. Correu para fora, montou a bicicleta e caiu. Teve a impressão de ter jogado peso demais com a perna, mas sem se lembrar de tê-lo feito, e confuso repetiu o movimento. Parou quando o guidão lhe pareceu mais longe do rosto do que deveria, assim como tudo o que estava a sua volta. Foi então que mirou os próprios pés e percebeu que a barra da calça encurtara uns bons centímetros: ele tinha o tamanho que vira no espelho.

Desnecessário descrever seu assombro, o que protege a realidade é o consenso. Todavia era seu corpo, o que o privava da mais acessível das defesas que é a dúvida. Restava-lhe, portanto, admirar sem moderação a sua sorte e aproveitar a nova estatura, exibi-la o quanto antes e a quem pudesse. Não contava com um segundo mistério: ninguém notou a diferença. Não por desatenção, e sim porque ela, aparentemente, não existia. De repente, era como se desde sempre fosse maior.

Pela necessidade de compreender o que acontecera e para explorar os limites daquele extraordinário fenômeno, na tarde seguinte, como em muitas outras, já se pode imaginar, ele foi à casa dos espelhos. Vislumbrou-se diante de um reflexo que o tornava outra vez menor, porém atribuía-lhe ombros mais largos, e voltou para casa, constatando que a imagem contemplada ficara novamente impressa em seu corpo e que, tal qual suspeitara, pessoa alguma sugeriu estranhamento.

Daí em diante, tornou-se frequentador assíduo do lugar. Diariamente, ao entardecer, dedicava alguns minutos ao cômodo abandonado, não só desejoso por aprimorar suas feições, mas também curioso por desvendar todas as possibilidades encerradas nas centenas de espelhos ali guardados, tantos que as modificações eram incontáveis. Com efeito, eram praticamente infinitas, concluiu depois, quando descobriu que podia ver seu reflexo no espelho através de outro espelho, e assim por diante, embora o resultado fosse gradativamente mais bizarro de acordo com a quantidade de objetos utilizados e mais valesse observar-se em um único. Dispondo de tamanho repertório, ele não tardou em apresentar cada medida na exata proporção almejada, apesar de suas preferências, como as de qualquer pessoa, estarem sujeitas a mudança, obrigando-o a retornar constantemente e criando nele um vínculo vitalício com o fabuloso mausoléu.

Engana-se, entretanto, quem pensa que sua história com a casa dos espelhos se resume a própria aparência. Em verdade, analisando o balanço de sua vida, a quantidade de visitas que dedicou ao lugar preocupado com sua fisionomia é irrisória. O local tinha muito mais a lhe oferecer, como soube na véspera de uma prova para a qual nada se preparara, ainda no colegial. Preocupado com o desempenho medíocre, mal conseguia se concentrar no queixo que aspirava aumentar, quando, olhando decididamente dentro dos próprios olhos, enxergou, em vez do rosto mais angular, um jovem que dominava a matéria a ser cobrada. Menos do que uma transformação, foi uma revelação, um aviso do espelho de que ele, a despeito de nunca ter atentado, dispunha de um vasto conhecimento sobre o assunto, e por isso não se surpreendeu quando o professor, em cuja disciplina ele nunca se destacara, entregou-lhe, na semana seguinte, uma prova em que figurava a mais natural e previsível das notas máximas.

Foi o primeiro passo de um longo caminho de autoconhecimento, no qual ele se descobriu dotado de uma inteligência primorosa, um orador fenomenal, um vendedor irresistível, artista brilhante, atleta invencível, além de tantas qualidades mais, tão numerosas quanto eram os espelhos em seu esconderijo mágico. E toda nova característica adquirida configurava menos uma metamorfose do que uma carinhosa recordação. Era como se ele chegasse aos espelhos e perguntasse “o que sou mesmo, agora?”, “um excelente escritor, senhor”, “ah, sim, claro!”, embora já sempre consciente da resposta, justamente porque precisava ouvi-la. E essas mudanças de caráter emocional ou psicológico dispunham de procedimento ainda mais simples do que as físicas. Enquanto estas contavam com um espelho ideal para cada finalidade pretendida, para as outras bastava ele mirar-se desejoso por um atributo, em qualquer um dos espelhos, que o obtinha de imediato, repentinamente antigo e duradouro, desde que, eis a única exigência, fosse para tornar-se algo que ainda não era.

Foi prefeito por vários mandatos, comprou uma rede de postos de gasolina, criou cavalos de raça e patrocinou pilotos de corrida de caminhões. Casou-se quatro vezes, teve seis filhas, três filhos e metade dos imóveis de sua pequena cidade. Com seus infindáveis recursos, poderia ter conquistado muito mais, talvez nem existissem limites para seus empreendimentos. Apesar disso, preferiu manter-se na região, de um lado por lhe faltar ambição, de outro exatamente para não se afastar da casa dos espelhos.

Ocorreu-lhe, certa vez, a ideia de levar um dos objetos para casa, porém deteve-se ao imaginar as consequências de possíveis propriedades que desconhecesse sobre o lugar. E se o encanto funcionasse mediante exclusividade, por exemplo, e alguém mais encontrasse o espelho, desfazendo, assim, tudo o que alcançara? Pelo mesmo motivo, fazia-se imprescindível que ele mantivesse a antiga loja sob vigilância, evitando que outros a adentrassem ou vissem, tarefa que seu cargo político facilitava. De qualquer modo, com o passar dos anos, descobriu que espelhos fora do seu refúgio também eram capazes de provocar pequenas modificações em sua personalidade, desde que ele as mentalizasse com determinação. O fato o convenceu de que o feitiço da vidraçaria não consistia nos objetos, mas no aprendizado de seu pleno aproveitamento.

“Não é o que você vê” explicou para a filha caçula, no dia em que ela se casaria, “é o que você quer ver”, embora o tenha dito em tom jocoso, ciente de que a jovem não partilhava do seu conhecimento.

Naquela mesma hora, no entanto, deu-se conta de que não queria ver as próprias sobrancelhas, grossas, mais retas e assimétricas do que se lembrava. Como faltavam horas até o casamento, decidiu passar rapidamente na casa dos espelhos. Um pneu estourado, contudo, acabou por arremessar seu carro contra uma velha mangueira alguns quilômetros antes.

Acordou no hospital, dias depois, imobilizado por faixas, gesso, pinos, velhice e medo. Antes mesmo de ouvir o diagnóstico dos médicos, ocorreu-lhe que, entre seus espelhos mágicos, algum poderia reverter seu estado, motivo pelo qual tentou convencer os familiares a tirá-lo do leito e acompanha-lo até um determinado local na estrada capaz de curá-lo. Ninguém lhe deu ouvidos; consideravam seu rogo um delírio resultante do choque, o qual deviam ignorar sob olhares condescendentes. Sem alternativas, viu-se obrigado a vencer o medo de revelar seu segredo e telefonou para a prefeitura, onde acionou os contatos possíveis, contou sobre o esconderijo e requisitou a busca imediata dos artefatos.

Foi um dia agitado, com policiais, bombeiros e jornalistas circulando pela rodovia que há anos quase ninguém usava. Percorreram por horas a velha estrada sem encontrar vestígio do suposto cômodo camuflado pela vegetação. Havia sempre ao menos um oficial em contato com o prefeito, para confirmar as coordenadas e a aparência da construção, assim como as datas e circunstâncias em que ele a havia visitado, informações recebidas com crédito decrescente. Por fim, tão enfático e rigoroso ele foi com os especialistas, estes, incrédulos mas obedientes, aprofundaram as buscas em uma zona de mata fechada à margem do asfalto, na qual não podiam crer que alguém já houvesse posto um tijolo.

Mais impressionante foi que, quando finalmente os esforços atingiram resultado, o prefeito sumiu. Os funcionários do hospital, a família e mesmo a equipe de segurança, contando com câmeras de monitoramento, falhavam em explicar seu paradeiro. Os veículos do prefeito permaneciam guardados, as empresas de transporte alegavam não lhe ter prestado serviço e as chances de que aparecesse um único cidadão testemunhando tê-lo visto se esvaíam com rapidez. Equipes de resgate foram montadas, uma grande área foi coberta, inclusive com helicópteros de cidades vizinhas, porém sem êxito. Terminado o prazo previsto por lei, foi dado por desaparecido. Assim, os bombeiros nunca puderam lhe dizer que, no lugar indicado, acharam somente uma ossatura que o exame forense atribuiu a um garoto morto por volta dos doze anos.

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Jeito Maneira

Filho de pais nascidos no campo, com lá ainda suas terras por cuidar, o garoto era planta de dois vasos. Fosse para visitar os avós, tratar os animais ou acompanhar o andamento das constantes reformas do retiro rural, a família estava sempre no sítio. O pai achava as constantes viagens muito acertadas, afinal era ali que deviam crescer meninos como ele fora. A mãe imaginava para o filho um futuro bem diferente, de preferência um em que trabalhasse de terno, mas lhe era inquestionável que pisar a terra fazia bem à saúde do garoto.

Não convém agora, no entanto, o que esperavam os pais da experiência de Renan na roça. Importa que um dia o pequeno, ainda com uns seis anos, calçava as botas na cozinha enquanto a vó acendia o fogão a lenha, ao que chegou um dos moços que trabalhavam para ela.

Dia, Dona Angélica cumprimentou tirando chapéu, o olhar preocupado.

Dia, Laurindo. Que houve que cê tá aí feito quem viu coisa?

O compadre Zé tá com o moço do trator da prefeitura pra bater a terra dele, mas o trem num passa na estrada, naquele buraco que a chuva deixou lá em cima. Ele me pediu pra vir perguntar se ele num pode passar pelo seu terreno.

Meu terreno onde, criatura?

Ali pra baixo da ponte.

Onde a gente acabou de carpir? gritou dona Angélica. Mas de jeito maneira! E Laurindo, acossado e respeitoso, acenou e se retirou ao mesmo tempo.

A verdade é que talvez não se tratasse de um caso de passagem de trator, e nem mesmo fosse Laurindo quem ali aparecera. Detalhes irrelevantes. Merece atenção o encanto que dominou Renan ao que sua vó elevou a voz, o dedo em riste na direção da porta.

E não bastasse o garoto já embasbacado, ela secundou mais alto na direção do umbral vazio:

Vai lá e diz que de jeito maneira!

Renan, com as mãos no cano sujo da botininha, sem qualquer chance de resistência, foi tragado pela força estupenda daquele açoite verbal. Revelava-se ali, diante dele, humilde criança no chão da cozinha, a verdade simples e absoluta de que uns mandam, outros não. O anúncio, contudo, veio desfalcado de explicação: que uma criança, frente às alternativas do castigo e da repreensão, abaixasse a cabeça era fenômeno que bem conhecia, mas um adulto, chefe da própria família?

Energético e curioso, o menino costumava perambular por horas ao redor sítio, voltando sempre encardido e portando alguma coleção de insetos que exibia orgulhoso, porém que a mãe lhe arrancava da mão aos tapas. Por isso não passou despercebido, naquela manhã, seu desinteresse pelas incursões usuais, o modo como transcorreu o dia no pátio, abaixado, o que no fim da tarde lhe garantiu inclusive uma dose de vermífugo.

O que fizera sua vó? Naquela manhã estava admirado demais para investigar os segredos do campo; não fora descobridor, mas descoberto. O fantasma conjurado por aquele prodigioso feitiço que apenas ele testemunhara rondava-o esnobe e convidativo, como um sorriso. Era uma ideia cuja presença ele conseguia sentir, que se fazia sólida, caso ele se distraísse, porém que desvanecia quando tentava alcançá-la, voltando a sussurrar capciosa por sobre a grama: o que fizera sua vó? O mistério desafiava Renan a decifrá-lo ao mesmo tempo em que se entregava, e o garoto sabia não haver, nos arredores ou mesmo um pouco além, objeto vivo ou inanimado mais valioso do que compreender o estranho poder.

Por isso relembrou o acontecimento incessantemente, com rigor científico, detalhe por detalhe, um sem número de vezes. A vó gritara, elencava ele no laboratório da memória, e o sujeito correra, fugindo do estalo das palavras. Após instantes de análise, repetia mentalmente a cena. Só podia estar ali, concluiu satisfeito, na exata exclamação, a razão da obediência imediata. Claro, pois Dona Angélica gritava com muitos sem atingir efeito semelhante, e muitos falavam com Laurindo, se é que era mesmo Laurindo, até gritando mais alto sem que o mesmo acontecesse.

De fato, a partir de então, cada vez que recordou o ocorrido, agora menos por curiosidade do que por vaidade, foi capaz de entender a fala da vó não como frase, mas como arma. Enxergava as sílabas rodopiando no ar, sobre a mesa, uma puxando a outra na direção da porta, a de trás alavancando a que havia por vir, a exclamação ávida por encerrar o golpe, materializando em vontade a energia acumulada. Eis seu laudo definitivo.

Renan esboçou um sorriso, contente com o resultado da pesquisa. Do mesmo jeito que colocava besouros num pote usado de vidro para exibir as conquistas de suas expedições, podia expor agora aquele espírito verbalizado, que o encantara justamente pela força, mas que ele lograra adestrar. Com a diferença sutil de que seu tesouro recente não definharia ao final da tarde e de que, desta vez, ele temia as consequências de mostrá-lo sem o treinamento adequado.

De jeito maneira cochichou para as formigas que começou a cutucar, autorizado pela sentença a esmagá-las, e levantava compulsivamente a cabeça, cauteloso e olhando para os lados, afinal era óbvio que algo na natureza pudesse castigá-lo pelo uso inconsequente da força dominada. De jeito maneira repetia ao ver que permanecia a salvo. Jeito maneira! e se deleitava frente a contestação de que a frase soava cada vez mais confortável em sua boca, um sinal de que se acostumava a manejá-la.

A mãe, que vira reforçada a necessidade do vermífugo ao que o filho não rejeitou beber o remédio, ficou profundamente preocupada quando ele tomou banho, jantou e se deitou sem objeção, uma vez que já estava acostumada a insistir por longos minutos antes que cada uma dessas ordens fosse acatada. Jamais lhe ocorreria que Renan, acostumado à birra como método de diminuir a diferença hierárquica, dotado agora do mais precioso conhecimento que um adulto pode adquirir, cumpriu com seus deveres não por obediência, mas para demonstrar o novo e merecido domínio sobre as próprias ações.

Na manhã seguinte, igualmente, surpreenderam-se quando o menino entrou voluntária e decididamente no carro, para voltar à cidade, dedicando à Dona Angélica um olhar misterioso que, na cabeça dele, a vó entenderia de imediato: que ele agora comungava da magia por ela guardada naquele nunca antes tão justificado refúgio; e que, como o herói que a responsabilidade o obrigava a se tornar, estava ansioso para dividir sua nova habilidade com os colegas em seu meio ainda privado de equiparáveis recursos: a escolinha.

Que incrível não seria, imaginava o garoto, o momento em que desvelasse diante da sala a sabedoria que separava a leniência da liberdade, que representava, chegou a cogitar, a diferença entre adultos e crianças, no lugar da altura, como alguns amigos acreditavam. Ele podia enxergar o brilho nos olhos dos meninos e das meninas, espantados com a revelação assim como ele estivera no dia anterior, e se encantava com a possibilidade de vê-los reproduzindo seus passos, sem jamais se esquecerem, este era um ponto importante, da pessoa com quem aprenderam o valioso segredo.

Quando enfim chegou segunda-feira e ele adentrou a escolinha, estava convencido de que conhecia o poder de antigos reis e imperadores, perdido no decorrer da história, embora não soubesse explicar como sua vó acabara por herdá-lo. O fato é que bravos exploradores deixaram suas casas, atravessaram oceanos, conheceram novos continentes e retornaram ricos sem pisar a terra natal com metade da altivez com que Renan cruzou o pátio. Glórias nunca antes conjecturadas aguardavam seu ato, e ele teria sucumbido à espera, não fosse a ansiedade uma força já muito irrisória se comparada a sua grandeza. Em vez disso, distraía-se mirando com desdém o quadro na parede do cômodo em que estavam marcadas, com letras garrafais, as “palavras mágicas” ensinadas pela professora Juçara.

Estava já entretido demais no ensaio de sua demonstração quando Juçara deu sua deixa, e foi trazido de volta pelo arrastar das carteiras velhas de madeira que se aglutinavam para formar grupos de seis. O garoto, no entanto, mestre na arte da atenção, não perderia, justo naquele dia, o momento preciso de sua entrada, em que a expectativa estivesse pronta para recebê-lo, e deixou-se ficar onde estava, isca da própria armadilha.

Renan, por que ainda está aí? indagou a professora, retórica. Sente-se ali, naquele grupo e o aluno, de um só pulo, pôs-se de pé sobre o assento, o indicador esticado, o braço estendido, e encheu os pulmões:

De jeito maneira! disparou, as sílabas se desenrolando até explodir nos ouvidos de Juçara, reivindicando a disciplina. Ele próprio sentiu chacoalharem os ombros com a onda arbitrária que inundou a sala, devastando a singela ordem ali estabelecida. E tão logo gritou, deitou os olhos sedentos nos colegas, buscando espasmo e aprovação.

Renan, deixa de gracinha e desce daí rebateu sua oponente, surpreendendo-o. Embora já receoso, ele repetiu com mais força o encantamento:

De jeito maneira! e a única reação a sua volta, com exceção da preocupação das crianças mais sérias, foi um risinho abafado.

Desce já daí ou eu vou escrever um bilhete na sua agenda ameaçou Juçara. Mais preocupado em não passar vergonha, ele distribuiu para a sala um riso nervoso antes de puxar sua carteira, barulhento, mas não fazia o menor sentido que ele, justo ele, tendo invocado corretamente o espírito da autoridade aprendido com a vó, e após tanto empenho para domesticá-lo, estivesse acatando ordens.

Demorou muito para Renan entender se havia dito as palavras de forma errada ou se a professora não sabia que devia obedecê-lo, ao contrário das formigas e de Laurindo, se é que era mesmo Laurindo.

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O Nascimento de Duas Ateias

Quando papai apresentou Laurinha à família, foi uma festa só. Duas tias minhas, suas irmãs, nada gostaram, e dirigiram à jovem olhares esnobes enquanto pensavam que ninguém as via. Mas a falsidade sempre foi elemento fundamental nas festas da família, de modo que as velhas reforçam minha comparação, em vez de comprometê-la.

Para o restante, a alegria foi verdadeira. Laurinha, com seus cachos que alvoreceram o cômodo, rejuvenesceu a família tão logo a conheceu, contagiando os presentes com uma alegria súbita e desmedida que eu imaginava reservada ao filho que esperam e continuarão esperando que eu tenha. Seu sorriso meigo começava no receio de não parecer amável e mantinha-se com o pavor de não corresponder à gentileza recebida, não sendo, ao mesmo tempo, jamais completo, pela vergonha de transparecer doçura demais. As mãos que se comprimiam diante do vestido delatavam que estava a ponto de se desfazer, uma boneca de porcelana retirada negligentemente da estante, intacta ali somente devido à força com que o braço comprido de meu pai envolvia seus ombros, como uma grande capa.

Enfermeira no hospital de papai, não caminhava com metade da resolução que as colegas exibiam ao desfilar pelos corredores, fazendo os sapatos ecoarem num staccato arbitrário para lá e para cá. Ao contrário, pisava sempre com a ponta dos pés, receosa de que o chão pudesse agredi-la, e mantinha os braços estendidos junto ao corpo, com os punhos levantados, dedos fechados, qual se os móveis fossem cães que rosnassem a sua passagem.

Se minhas tias a consideravam interesseira, era, obviamente, apenas porque a malícia as deixava cegas ao medo que exalava a jovem, cujo olhar afável se demorava em cada objeto ou pessoa.

Cegas, acima de tudo, ao modo como Laurinha mirava meu pai, sempre de baixo para cima, venerando-o, embasbacada como se diante da mais bela escultura, para depois encontrar seu olhar claro e acolhedor.

Papai, por sua vez, aguardava a realização deste gesto com um sorriso fascinante, uma demonstração tímida de felicidade que mal alterava sua expressão, mas iluminava seu rosto, uma certeza que lhe era absoluta e a qual não podia e tampouco queria explicar. Estudava fixamente os olhos da amada, ciente do percurso por eles descrito, e erguia as sobrancelhas com suavidade ao recebê-los, com um quê de surpresa e contente com a bondade de se fingir um pouco surpreso.

Pequeno foi o espanto quando ela se mudou para casa alguns meses depois, senão nulo. A maioria de nós inclusive esperava por este momento, satisfeita com o bem que proporcionava a meu pai. Laurinha chegou com duas malinhas singelas, que combinavam com a saia azul, nas quais trazia apenas roupas. Nem um único enfeite, fosse para estante ou parede. Empenhava-se em não se fazer percebida com a mesma força com que atraía atenção sem querer.

Saía e voltava com meu pai, de modo que ficava pouco em casa, mas rapidamente fez amizade com Lurdes, nossa cozinheira, com a jovem que cuidava da limpeza na época, cujo nome já não lembro, e com o jardineiro João. Havia uma nítida barreira de afinidades entre nós, o que não nos impedia de manter diálogos saudáveis compostos por sorrisos, piscadelas e votos de bom dia ou boa noite.

A conversa mais longa e sincera que tivemos, nessas primeiras semanas, deu-se quando ela descobriu que eu pintara boa parte dos quadros expostos no andar de baixo.

– Foi você que fez? – indagou-me diante de uma das telas, admirada, a voz baixa de uma visitante em um museu.

– Foi sim – admiti, feliz.

– Você é muito talentosa, parabéns! É necessário ter mãos muito precisas para pintar assim, não? Deve ter puxado seu pai.

Papai era cirurgião, e fiquei espantada por nunca ter feito a relação antes.

– Acho que sim.

Mais ou menos por esses dias foi que Laurinha pediu a Lurdes para deixá-la preparar o jantar e arrumar a mesa. A essa altura, eu já compreendera que fora criada para servir tanto quanto para não incomodar, e havia algo em sua maneira de organizar os pratos e talheres que era de fato gracioso de se ver. Batia as palmas contra o vestido depois de ajeitar cada objeto, certificando-se de estar apresentável como os arranjos de que se ocupava, e corria para a tarefa seguinte. O cheiro da bacalhoada logo se espalhou pela casa, irresistível.

Quando nos sentamos, era nítida a ansiedade no olhar dela, mais corrediço do que o usual, as pálpebras recolhidas com o receio de piscarem e privarem-na do momento em que meu pai provaria a comida.

Ele mal passou um segundo sentado, no entanto.

– Que estranho – comentou, erguendo-se – a Lurdes serviu facas de carne, em vez das de peixe – e buscou lâminas sem serra para todos.

Conheço meu pai. Tivesse mesmo pensado ser a cozinheira, não teria comentado em voz alta, mas a chamado para trazer os utensílios corretos.

– Fui eu, querido – disparou Laurinha, enrubescendo. – Eu que coloquei a mesa. E também cozinhei – segundou como se pedisse desculpas.

– Ah, meu anjo – exclamou, desconcertado, envolvendo-lhe o pulso com seus dedos grandes e precisos. – Não se preocupe, é costume de gente besta – e abriu o sorriso pequeno que lhe engrandecia o semblante, capaz de lavar todas as preocupações do mundo. Mesmo eu me senti mais aliviada com a ternura que transmitiu. – E se o sabor estiver tão bom quanto o aroma, posso comer com minhas mãos – adicionou, arrancando dela um suspiro com o frescor do vento noturno que agitava as cortinas atrás de nós.

Ocasiões semelhantes se desenrolaram com frequência, frutos da educação mais humilde de Laurinha, quando comparada à de meu pai, e o desfecho não se alterava.

Outro dia ela organizava a coleção de discos dele, abrindo-os um por um para retirar-lhes a poeira, quando avisou:

– Amor, este aqui está vazio.

– Qual?

– Chopin.

Ele se levantou e foi até ela.

– Pronuncia-se Chopan – explicou, e ela abaixou a cabeça, repetindo o nome com os lábios. Ele ergueu seu queixo com diligência, no rosto a amabilidade capaz de atenuar uma tormenta, e beijou-lhe a testa. – Mas não importa o nome, sim a música. Creio que já esteja no aparelho, venha, escute.

Aos poucos Laurinha foi adquirindo ou conhecendo, mesmo que parcialmente, os gostos e gestos de papai. Não que ele fizesse questão, realmente pouco lhe importava se ela sabia isso ou aquilo, mas é compreensível que para a jovem fosse importante se aproximar da personalidade do homem que admirava. E se abrir mão de suas preferências fazia parte do jeito dele de amá-la, esforçar-se para incorporá-las era como ela tornava o sentimento recíproco.

Havia na sala uma foto do casamento de meus pais que eu às vezes a flagrava segurando. Imaginei, a princípio, que sentisse ciúmes ao observá-la, ou que se comparasse a minha mãe, como que para medir-se, de um jeito que todos já fizemos um dia. Mas assim pensava porque associava sua figura miúda a algo de imaturidade, coisa que longe passava do motivo real. Além do mais, era impossível para Laurinha nutrir qualquer emoção que eventualmente pudesse levá-la ao ímpeto de não querer o retrato ali, tão sólida era sua vontade de não desagradar.

Descobri o que lhe despertava a fotografia ao ouvi-la falando com Lurdes.

– Eu até sonhava em me casar, sabe? Fazer uma festa, chamar a família de longe. Mas mesmo no sonho mais pomposo eu não me sentia bem assim, como hoje, acho que não preciso mesmo disso…

E era fácil enxergar que dizia a verdade. Ela e meu pai se alegravam qual fossem um milagre na vida um do outro. Começaram a viajar com mais frequência, ela visitou as regiões do país que ainda não vira, conheceu países da Europa, da Ásia, e nos enviavam fotos abraçados de cada ponto turístico por que passavam, dois adolescentes radiantes, o braço de meu pai sempre a envolvendo, como uma grande capa. Raramente brigavam, e, se chegavam perto de uma discussão, o rosto de meu pai logo se enternecia.

– Está bem, querida – concordava num sopro carinhoso. Muitas vezes eu ansiara por recebê-lo, no passado, quando com algum problema grave, pois fazia-me sentir leve como uma folha rodopiando sobre o jardim. Laurinha se acostava em seu peito ao ouvi-lo, protegida.

E um dia ela se foi. Descobri quando estranhei que papai tardava a chegar para almoçar e Lurdes respondeu que ele na verdade não deixara o quarto.

– Eu não sei – ele me disse quando perguntei o que havia ocorrido, com o rosto de um garoto assustado. Os olhos azuis estavam lívidos, miravam o próprio cômodo como se o desconhecessem. – Ela disse que tinha que ir. Será que deseja se casar? Eu me caso, claro que me caso!

Botou meio mundo atrás dela. Contatou as pessoas do hospital, a polícia, conseguiu o número de parentes distantes, viveu cada segundo daquele dia com uma urgência que jamais lhe despertara mesmo a mais difícil das cirurgias. Não encontrou vestígio. Na manhã seguinte, chegou um taxista encarregado de buscar as roupas que faltavam. Entregou-nos também um bilhetinho:

“Eu preciso de um tempo pra mim”. Uma única frase. Laurinha temia ocupar espaço até na forma de papel.

O aclamado doutor Joaquim Fernandes de Arruda finalmente envelheceu. As décadas que aparentemente não deixaram marca enfim cobraram seu preço. Pareceu que as moléstias combatidas ao longo da carreira se reuniram em seu organismo, ou que a morte lograva forçá-lo a compensá-la pelos clientes perdidos e pelos contratos renovados.

Ficou fraco, rugas assomaram em seu rosto e descobriu subitamente sinais de calvice. Deixou de ir ao trabalho e passou a revezar suas horas entre o quarto e o escritório, sem trocar palavra e quase sem comer.

Julguei sua reação normal, no começo, mas não demorei em me preocupar, e ainda menos em me intrigar. A morte de mamãe não o havia abatido daquela maneira, então por que a partida de Laurinha, alguém com quem convivera bem menos, fazia-o definhar? Será que a amava muito mais? Ou o fato de ter acompanhado a doença da esposa, anos antes, tinha-o preparado para a dor que agora chegara sem aviso, acelerando tão vertiginosamente sua decrepitude?

Eu apenas especulava as razões de seu sofrimento, que me parecia exacerbado, até que um dia me detive à porta de seu escritório, observando-o. Ele estava sentado na extremidade oposta, banhado pela luz e olhando para o céu, a janela transformada num confessionário em que conversava diretamente com Deus.

– Se ela tivesse encontrado outro – lamentava-se –, ou morrido.

Estava aí minha primeira e equivocada conclusão: machucava-o não entender o que se passara. Vinte anos de estudos, especializações no exterior e centenas de livros em suas prateleiras utilidade alguma apresentavam para explicar as razões de Laurinha. E era, com efeito, um mistério compartilhado pela família inteira, embora nunca vocalizado. Primeiro porque meu pai a tratava como o mais precioso de seus tesouros, e segundo porque ela era honesta demais para não admitir, caso tivesse se se apaixonado por alguém.

Somente semanas mais tarde decifrei o enigma de sua partida, num instante em que, como costuma acontecer, não me achava absolutamente preparada para a brutalidade que a realidade reserva à inocência.

– Vamos, papai – insistia, ajeitando o brinco e caminhando com cuidado sobre o salto por prender. – Ainda dá tempo de o senhor se arrumar. Seria tão bom se fosse!

– E o que é que vão tocar, afinal? – indagou, embora eu lhe tivesse dito tantas vezes.

– Chopin – repeti, entusiasmada com a expectativa de encorajá-lo. A reação obtida, no entanto, foi desoladora. Em seus olhos, vi todo um universo surgir e desaparecer, vi a contemplação impassível de um romântico irrefreável arder uma última vez, confrontar-se com uma decepção sem tamanho e deteriorar-se de imediato, reduzida à mais completa inexpressividade. Tal era o vazio em sua face, em sua boca entreaberta, que de certo não me viu deixar o quarto, cambaleante, largando salto e brinco, profundamente exasperada.

Sequer me preocupei em decidir para onde iria ou por quanto tempo. Asco e pavor se agigantavam dentro de mim, incontroláveis, e me afastei como se convencida de que a distância reprimiria os soluços compulsórios e o choro incessante que me encharcava o colo. Dirigi como se um destino aleatório pudesse me extrair da memória o sopro intempestivo de vida que resvalou o semblante de meu pai antes de largá-lo no estado deplorável que eu já não sabia definir se recente ou intrínseco ao homem que eu mais amara.

Pois o fulgor abrupto em seus olhos, o estalo de energia que abalou seu torpor por um instante, delatou, com aterradora perícia, que não havia nada, nada no mundo inteiro, que aquele sujeito pudesse desejar mais, de corpo e de alma, do que se levantar, segurar-me os ombros, beijar-me a testa, sorrir com brandura e dizer:

– Pronuncia-se Chopan, querida.

Condenam-me todos, e com razão, por abandonar meu pai no momento em que mais carecia de mim. Por fugir mesmo tendo recebido ininterrupta atenção e a melhor educação ao longo de anos. Mas ninguém sequer imagina o quão doloroso foi descobrir que o conforto encontrado, cada vez que busquei auxílio, tinha por intuito, na realidade, nutrir uma vaidade sórdida.

Porque a real e inesgotável fonte de alegria de meu pai era perdoar. Pois, ao fazê-lo, regozijava-se com a plenitude de sua bondade, com o quanto era magnânimo por não se importar com a ignorância alheia, por sua capacidade louvabilíssima de nutrir afeto mesmo pela mais simplória das criaturas, de tal modo que mais se engrandecia quanto menor e mais frágil lhe parecesse o destinatário afortunado de sua misericórdia.

Apenas a Laurinha eu daria ouvidos, mas também ela precisou fugir das lembranças que traçavam, todas, como um rabisco turvo, a fronteira entre a bondade e a complacência.

Não por desacreditar que meu pai a amasse.

Mas por ter aprendido a duvidar de um amor que precisava constantemente perdoá-la.

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O Último Causo

– E então, o que temos? – iniciou o homem atrás da mesa, um tanto automático e sem tirar os olhos das letrinhas rabiscadas no papel em suas mãos.

– Mas como o que temos, doutor? O diabo do menino tá azul! – a indignação da mãe, há dias sob controle, extravasou diante do médico que nem erguia a cabeça. E quanto a Dr. Fabrício, seja dito em sua defesa, ao que viu o menino, tampouco se deu ao trabalho de reprimir qualquer sentimento, dado que, pelo menos até onde se estendia seu conhecimento à época, “Jesus” não configurava diagnóstico devido nem profissional.

– Com efeito, jamais vi nada do gênero – anunciou com formalidade, aquele jeito de proferir as palavras que o deixava sabido mesmo quando não sabia nada.

E a mãe, um desespero. Repudiava o posto de saúde, a espera sem fim na salinha de cadeiras de plástico, meio mundo tossindo a torto e a direito, sujeitos à ventania que perpassava as vidraças quebradas, a criançada chorando. Os seus não faziam cena, mas de jeito nenhum. E não estariam ali, ela e o menor, caso resolvesse a moléstia em casa mesmo, na roça. Mas se nem a benzedeira lá na ponta do brejo, que tratara o próprio Dr. Fabrício, quando pequeno, sabia o que deixava o coitado azul, desconhecendo providência cabível, então só com ciência mesmo. E agora o doutor não sabia do que se tratava! Que fariam?

– Recomendo um conhecido na capital, médico de renome, vai saber orientá-la.

A notícia desanimou, mas surtiu também encanto.

– A capital – exclamou a mãe, já em casa, contemplando o nada. – Sabe que nem sei se existe mesmo? Quer dizer, existir existe. Mas do jeito que eles criam coisa na tevê, é planeta, é guerra, aqueles bichinho tudo. Quem garante que é como mostram mesmo, cheia de prédio? – e o menino azul feito produto de limpeza.

Não que fosse de agora. O garoto desde muito demonstrara aptidão para a troca de cor. Surgira já com braço verde, perna roxa, o olho pretejara certa vez, mas nunca por mais de um dia. Agora, porém, fazia semana que sua pele apresentava o mesmo azul reluzente das penas do Ticó, o pavão velho do terreiro.

E não sentia nada. Não reclamava de dor, coceira, ardência, um ai que fosse. Era provável que ao pequeno a preocupação da mãe representasse o maior dos males de sua estranha coloração, se é que havia mais de um.

–  Vai saber, mãe – ponderou a filha mais velha, dada a reflexões –, e se o pessoal da cidade acha que nóis não existe, quando vê na tevê o mato?

– O moleque não tem é nada – tentava acalmar o pai, e a esposa explodia:

– Mas como é que é nada, Senhor do Céu, se tá azul?

– Pois o céu mesmo não é azul desde sempre sem você saber por que? Ele comeu foi algo ali no córgo, já que passa.

Havia o vô também, pai dela, manco, ranzinza e de outra opinião:

– A gente ganhava era uma renda com o menino.

– Mas eu não vou discutir de novo!

E o velho calava, resmungando, já desistente de teimosia, mas com a convicção fortalecida dos velhos que calam. Lembrava muito bem do bezerro de cinco patas que nascera logo após seu casamento, e que trouxera gente de tudo quanto é canto, inclusive o Dr. Umberto Cantagalo, dono de terras que não findavam, lá de fora do estado, e que deixou com eles vinte e duas cabeças de gado em troca da raridade, embora as duas últimas fossem, claro, resultado da sua qualidade enquanto negociador.

E por uma criança azul, então, que não se daria? Viria até apresentador de jornal entrevistar a família!

Ainda assim, não bastasse desperdiçarem aquela fonte, coube a ele prover recursos à viagem. Detinha ainda uma criaçãozinha que chamava sua, dúzia e meia de animais não tão fortes, não muito bonitos e, verdade seja dita, de saúde contestável, o que ele atribuía aos pés de laranja que rodeavam o sítio, nos quais se passava veneno diariamente. “Defensores agrícolas”, corrigira-o, certa vez, o Dr. Fabrício, mas ele queria mais era que o médico fosse para o raio que o partisse.

Importa que venderam animais seus para custear a consulta e também as passagens da filha e do neto, mais de um dia de estrada ao longo do qual o pequeno foi do azul para o verde, avermelhou, voltou para o azul e chegou exibindo um rosinha bronzeado e sujinho de terra. Ou seja, como viera ao mundo.

No consultório da capital, de luxo comedido, limpeza impecável e brancura desconfortante, o Dr. Ângelo perguntou, desconfiado:

– Muda de cor, você diz?

– Muda sim, doutor – garantiu a mãe. – Agora ele tá normal, mas tem dia que parece uma arara, e a pele não muda, não importa o que se faça.

Dado que haviam pago, e também um tanto motivado pela reação que esperava despertar com seus equipamentos, o homem fez todos os exames ali possíveis, os gestos desacelerados pela solenidade forçada.

– Ele não tem nada, pode ficar tranquila – revelou sincero. Adicionou, contudo, jovial – A senhora pode voltar com algumas fotos, se quiser, para eu estudar melhor. Não cobramos retorno.

Na mesma rua, a mulher comprou um celular que parcelou por um ano, mas que tinha duas câmeras, gravador de voz, rádio fm, dicionário, calculadora e até calendário marcando os feriados. Vinha também com internet, um número lá que esqueceu rápido, mas que devia significar pouco, uma vez que esgotou passadas duas horas da viagem de volta, quase o mesmo tempo necessário para que o filho ficasse laranja feito um mamão.

A filha, por um tempo, queixou-se. Afinal, soubesse que comprariam enfim um celular, tinha mudado de cor ela própria, e muito antes. Acalmou-se, no entanto, conforme o uso do aparelho foi compartilhado, o que gerou, por sua vez, novos conflitos: justo quando o caçula ficava anil a bateria acabava.

O empenho da mãe, tão pronto chegou, foi providenciar regresso.

– A segunda é de graça – argumentava –, a viagem é a parte mais barata. E o pai tem ainda umas cabeças.

Reclamou por três dias e três noites, o avô, dizendo que podiam logo, todos, deixar de trabalhar, e se uma telha trincasse, se uma cerca caísse, se a geladeira estragasse ou o paiol pegasse fogo, tudo o que precisariam fazer seria vender uma de suas cabeças, e que chamassem de uma vez o prefeito, e que as vidraças do posto de saúde, os telefones públicos cada vez mais escassos, o corpo de bombeiro em pedaços e que os bancos da praça da Matriz fossem reformados com o dinheiro da venda de suas vacas.

E para uma criança que, usada bem, daria dinheiro! Se a perna andasse, repetia, ah mas se a perna andasse!

A mãe recolheu, ao longo de um mês, centenas de fotos do filho Este tanto mudara de cor, adquirindo as mais variadas tonalidades, que ela estava certa de poder caminhar até a capital, em vez de ir de ônibus, e sempre pelo campo, que não reuniria, fotografando flores, pássaros e frutas, cores suficientes para se equiparar ao catálogo do garoto. Tinha cor que ela nunca vira nem sabia chamar, e as quais a filha se divertia nomeando, como “Estrela Dalva”, “batata doce” e “titica de Ticó”.

Outra vez com Dr. Ângelo, entretanto, lá estava o menino, meio com a pele dela, meio com a do pai, nem um hematoma para chamar atenção.

– Olha as fotos, Doutor – rogou ela. – Vê só se pode uma coisa assim.

– Um caso excepcional, sem dúvida – concordou o sujeito, com um assombro tão legitimo que, fosse um pouco mais intenso, ela julgaria falso. – Aqui está ele saudável, todavia. Cá para nós, já pensou a senhora que pode ser efeito da terra em que vive? – e ela, que já tinha cogitado a relação, mas desprovida de estudo da matéria, sentiu com pesar seu palpite virar veredicto.

Sem ter que fazer, voltaram para a roça. Ela tentava ignorar a enfermidade cromática do filho, consolando-se com o fato de que, de resto, ele seguia perfeitamente bem, mas doía-lhe o peito vê-lo ora lilás, ora cor de erva cidreira, aqui meio que sujo de tijolo, em seguida já branco feito nuvem. E quando entrasse na escola, quanto não mexeriam com ele, os outros moleques?

Como que reagindo a suas preocupações, a anomalia da criança foi se avolumando. Começou a aparecer listrada, xadrez, coberta de círculos, era cada dia um desenho diverso, e a mãe sempre mais aflita.

Atingiu-se o cúmulo na noite em que o caçula disse a primeira palavra:

– Pi-li-lam-po! Pi-li-lam-po! – gritou subindo a cama dos pais, iluminando o quarto cada vez que abria a boca, a língua fosforescente.

Mais tarde, já a sós com o marido, a mulher comentou:

– Na cidade ele fica normal, bem. Não é?

– Cê diz que é – anuiu ele, agachado e picando fumo.

– Quanto que tinham oferecido na terra, mesmo?

– Um tanto até que bom – admitiu, e bolou o cigarro.

Venderam o sítio. A família que cultivava laranja em volta deles já havia feito oferta, mais precisamente uma madame alta, loira, chamada Mônica Cantagalo, com outro sobrenome estrangeiro difícil. E embora a contraproposta tenha sido um pouco mais elevada, a tal dona não tardou em aceitá-la, o que de maneira nenhuma privou o avô de amaldiçoar por anos a falta de traquejo comercial da filha e do genro, que abriram mão, segundo ele, por uma mixaria, não só da terra, mas também do seu gado e até do pavão.

Na capital, compraram uma casinha no morro, há três horas do centro, com um muro amarelo canário, para lembrá-los do interior. Dos fundos, a primogênita espalmava as mãos na janela, olhando a cidade.

– Não é que existe, filha? – incentivou a mãe, contente, num dos primeiros dias, e a menor fez que sim.

– Mais que o mato!

E quanto ao menino, nunca mais mudou de cor. Também o amarelo do muro, um tempo depois, mofou, descascou e caiu, deixando-os com um cinza igualmente estável.

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Felicidade

Rosa dos ventos
Que aponta pra nada
E tampouco ilumina
Os corpos na estrada
Silhueta de estrela
Em decomposição.

Como um falso deus
E por engano, talvez
Brilhastes no céu
Uma única vez
E nós, tolos, seguimos
Tua aparição.

E mesmo os que sabem 
Que as luzes lá em cima
São de estrelas já mortas
Sucumbem à sina
Que é te esperar,
Triste maldição.

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Ode à Garota que Espera

Garota das pernas cruzadas
Sentada sem pressa na plataforma
Em que mundo vive?
Não percebe a tormenta humana que se contorce almejando os trilhos, preferindo se
_____________________/consumir a deixar que o tempo a consuma?
Não vê a massa descontrolada se estraçalhando, as pernas e os gládios, os braços e as
_____________________/lanças, os gritos de guerra e de medo e de fúria
_____________________/lutando  para escapar do Passado?
Por que não corre dos minutos balas perdidas disparados na multidão?
Por que não teme o fechar das portas que decreta o Juízo Final?
Garota das pernas cruzadas, qual seu segredo?
Já imagino a humanidade ajoelhada a seus pés, pasmada ao escutar que espera! Espera?
_____________________/É magia, precisa de curso, é um novo produto desconto
_____________________/portátil girando nas vitrines do outro lado da pista?
E de repente bruxas foram queimadas porque esperaram, jornais decidiram que esperar
_____________________/era comunismo, o homem foi à lua esperando esperar!
Garota que espera,
como?
Como não vê a devastação que a cerca, o silêncio que oblitera os retardatários, os sonhos
_____________________/que colapsam ao que parte o vagão?
Garota sentada, você é a vida que persiste quando o trem passa!
Uma planta entre os trilhos não seria mais que uma janela escapista no inferno ambulante _____________________/da marginal.
Mas você, com suas pernas cruzadas,
Indiferente à urgência que ruge rasgando a estação,
É a resistência última contra o vórtice urbano que nos devora!

E toda a cidade se dissolverá,
Quando você se erguer.

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O Sótão

Não obstante o estrondo com que a porta fora aberta, dando acesso a uma sala até que um tanto aconchegante, embora com mais móveis do que seria o devidamente equilibrado, assim como com mais quadros do que parecia convir, e também não obstante a oscilação repentina das janelas causada pelo deslocamento abrupto de ar, o que mais ecoou ali foi o gemido alto e ululante do sujeito que, seminu e ferido, com correntes presas aos tornozelos, foi arrastado a solavancos para dentro do cômodo.

O homem que o puxava, indiferente às cadeiras e tapetes que eram agarrados pelo caminho, mesmo quando um dos últimos trouxe consigo uma mesa e um jogo de xícaras que se arrebentou contra o chão, apresentava não mais do que a face tranquila, ainda que, claro, cansada, do cidadão que encontra prazer na vitória diária contra uma rotina extenuante.

O que deslizava, por outro lado, e como era de se esperar, gritava com todo o vigor que seu organismo já debilitado lhe permitia e com a potência extraordinária não raramente característica de situações como a em que se achava, nas quais impera o instinto desesperado sobre a razão, e não fosse, inclusive, este o quadro, e talvez seria possível que ele próprio se indagasse como seu agressor não se preocupava em abafar seus berros escandalosos ou o ruído provocado por sua passagem turbulenta numa vizinhança tão movimentada.

— Não! — exclamava com uma garganta nitidamente desgastada, cada palavra rompendo-lhe o peito como uma raiz brutalmente arrancada da terra. — Não! — e se debatia inutilmente ao longo da passarela de luz desenhada pelo feixe solitário que adentrava a porta. — Não! — sua voz dilacerava a noite, gradativamente mais alta e rouca, porém igualmente incapaz de abalar a solidez das correntes frias que, de modo oposto, tilintavam com timidez na penumbra.

E quanto mais urrava, quanto mais grunhia o pobre diabo, menos humanos se tornavam seus gestos, espasmos involuntários em direções pouco intuitivas, as articulações machucadas e convulsivas tamborilando na madeira o ritmo descontrolado da vertigem no qual o atirava a desesperança. A precisão com que seu corpo refletia seu ânimo, ao que terminou de atravessar a sala, era bastante para que suas extremidades não apontassem, nenhuma, no mesmo sentido de outra, e o coitado restasse prostrado qual uma flor pisoteada no asfalto.

Seu raptor, de tanta convicção depositada na superioridade da própria força, ou por tê-la, aliás, em tamanha estima que sequer cogitava a possibilidade de reação alheia, encontrou tranquilidade para passar na cozinha e matar a sede. Verteu goles longos de água que poderiam ser interpretados como um sinal do seu completo descaso em relação à figura que até há pouco resistia, perspectiva humilhante o suficiente para rebaixar sua vítima, cuja posição já fazia dela muito menos do que um animal, e levá-la, menos por medo do que por vergonha, a retomar os berros em volta dos quais ali chegara.

Vendo-o agonizar com a expressão que direcionaria a um inseto definhando abaixo de sua pia, o agressor cuspiu o resto do líquido no ralo, passou a mão livre pelos cabelos, suspirou profundamente e, num ato súbito de ira, completamente incongruente com a calma até então apresentada, despedaçou o copo no piso, ao lado do prisioneiro, a quem arrastou de volta à sala por cima dos cacos, deixando uma trilha de suor e sangue que parou de brilhar ao que a porta do refrigerador enfim se fechou.

Fez uma curva, passado o umbral, e começou a subir as escadas.

A criatura moribunda que o acompanhava involuntariamente, cujas unhas estouravam ao buscar apoio nas fissuras dos tacos, sabia, de alguma forma, que os degraus aos quais era compelida compunham seu trajeto derradeiro, que para percorrê-lo é que fora perseguida na rua, calada à força, espancada, presa, espancada outra vez, jurada de morte caso dissesse uma palavra mais, e trazida praticamente nua até aquela casa, incólume ao frio unicamente devido aos hematomas e ao atrito com o cimento. Sabia que era aquela escada, ou, no máximo, o que restava além dela, a última coisa que veria, e mesmo assim não muito bem, uma vez que os olhos inchados dos golpes, a tontura, o sangue que lhe cobria as pálpebras e a própria falta de luz a impediam de estudar o ambiente no qual encontraria seu fim. Tal certeza inabalável foi que lhe conferiu ânimo não só para sustentar os gritos, mas para emiti-los com um fôlego hercúleo, qual fossem seus pulmões o berço de toda a coragem que um dia viera a ter, e que proporcionou aos seus músculos contundidos a força necessária para se agarrarem com sucesso à quina da parede.

Por um instante, disputou de forma justa com seu adversário, as pernas suspensas no ar, erguidas pelos resistentes grilhões. Assim que este percebeu sua tenacidade renovada, entretanto, soltou-o e desferiu-lhe, sem que isso, em qualquer momento, comprometesse a impavidez de seu semblante, tantos chutes quanto havia degraus até retornar ao piso inferior. Em seguida, o homem pisoteou-lhe as mãos esquálidas, que quase perfuravam o gesso, esmagou-lhe os dedos com a sola rígida do calçado, o som dos ossos partidos competindo com os gemidos, e voltou a subir, já sem esforço.

Incapaz de segurar o que quer que fosse, o infeliz prisioneiro se agitou delirantemente caminho acima, batendo nas paredes com os pulsos. Conforme se atirava de um lado para o outro, derrubou, ora um por vez, ora aos montes, os quadros e retratos organizados pela subida, aparentemente em mesmo ou maior número que a já exagerada quantidade exposta na sala. Os objetos se partiram ao encontrar o porcelanato, e o agressor, vendo suas lembranças destruídas por aquela existência desprezível, sentiu explodir um ódio que o fez seguir ainda mais velozmente.

— Por que? — berrava sua vítima, dizimada pela violência e consumida pela injustiça que era encontrar, ao término daquele percurso, o castigo destinado a um ato que desconhecia, que nem mesmo podia julgar merecer, mas ao qual, ainda assim, era submetida tão inabalavelmente. — Por que? — insistia, num uivo que era vão tanto quanto visceral.

Pois a perguntava que entoava, e isso não tinha como desconfiar, embora lhe parecesse tão forte, tão eloquente e útil ao seu propósito atormentado, era, provavelmente em virtude de sua inerente grandeza e densidade, a única à qual seu agressor era completamente invulnerável. Podia ter indagado, por exemplo, “onde conseguiu estas correntes, de repente, ao caminhar pela rua?”, “como não tranca as portas de sua casa, enquanto comete um crime?” ou “de onde retira tamanha força e determinação para me torturar?” e seria possível que os resultados lhe fossem mais positivos. Isso porque aquele rosto que o mirava impassível, calmo ao fustigar de maneira hedionda uma pessoa na calçada, fleumático ao aprisioná-la e levá-la à força aonde quer que fosse, somente podia existir após uma vida ignorando qualquer questionamento de seus atos, trancafiando-se frente à menor insegurança quanto às próprias decisões, de modo que perguntar-lhe, agora, por que fazia algo era o mesmo que não inquirir nada, surdo e calejado que já estava em relação ao horror de avaliar uma escolha tomada.

— Você devia ter ido atrás dele — urrou então o refém — ainda dá tempo, vá, vá! — e seu carrasco, a despeito da obstinação maciça anteriormente ostentada, qual sua força o tivesse abandonado num átimo, sentiu as pernas vacilarem e as mãos afrouxarem. Os elos que segurava, pela primeira vez, não permaneceram esticados, mas distensos, retinindo numa interrogação metálica. — Ele deve estar lá ainda, vá! — e a face decidida de instantes atrás desmoronou, deixando em seu lugar uma máscara de pura súplica, cujos olhos tristes pareciam incapazes de enxergar algo que não lhes despertasse pavor. — Corra, por favor…

— Quieto! Quieto! — impôs o algoz, sôfrego. Voltou a puxar a figura lastimável estirada a sua frente, mas de tal modo desorientado que caiu. Permaneceu, contudo, a trazer os grilhões para perto de si, sem preocupação aparente de se reerguer, como se continuar puxando fosse suficiente para findar as sugestões de sua vítima.

— Você devia ter…

— Cale a boca! — vociferou, enrubescendo de fúria. Pôs-se de pé num salto, ajeitou a corrente sobre os ombros e correu, os joelhos aquecidos pela ansiedade, as costas buscando energia na pouca distância que faltava para o desfecho de seu pesar. Os conselhos do miserável, agora transformados numa espécie de cântico alucinado, passaram a ecoar silábica e descontinuamente, pausados pelos baques das vezes em que sua nuca encontrava os degraus.

O último patamar, engolido pelo breu, dava para uma pequena e velha porta, de posição já bem familiar ao dono da casa, assim como a maçaneta e suas cinco fechaduras corrediças, que ele destravou com velocidade assombrosa, principalmente tendo vista a intensidade com que tremiam suas mãos. A ode doentia proferida pelo sujeito o abominava o bastante para que o ranger das dobradiças enferrujadas soasse como uma benção.

O sótão era amplo, sujo, repleto de móveis velhos atulhados, alguns cobertos e outros não, de vigas que estalavam e de telhas à mostra, um lugar pouco aconchegante, mofado e no qual o ar irritava a garganta. Uma atmosfera opressiva que não era, entretanto, por si só, absolutamente nada se comparada ao inferno no qual a tornava o hino mórbido de apelos e advertências expelido pelo homem arrastado, cujos berros ali tomavam a forma de demônios que dançavam sordidamente.

Tudo isso o carrasco esperava erradicar, quando amarrou sua vítima em uma coluna na extremidade oposta.

— Você precisa volt…— ela implorou entre lágrimas, interrompida, contudo, pela mão de seu inimigo, que garantiu ser melhor que se calasse, pois ninguém, por toda a eternidade, voltaria a escutá-la. Ele então deu meia volta, com o intuito de regressar às escadas, finalmente aliviado. Estava despreparado, no entanto, para encontrar, em seu caminho e aguardando por ele, os demônios invocados pelos guinchos histéricos do infeliz aprisionado.

Gordos, magros, saudáveis, moribundos, bem afeiçoados, desleixados, alguns de tatuagens, outros de cabelo comprido, barbudos e de queixo liso, uns de terno e gravata, outros sem nada, às vezes com alianças, ora com cicatrizes, eles traziam toda sorte de traços e marcas. Formavam, visivelmente, mesmo com a iluminação ruim, o mais diversificado grupo, apresentando em comum, todos e cada um deles, apenas os grilhões que lhes aferrolhavam os tornozelos e as máscaras de súplica no lugar do rosto. Davam passos pequenos e fracos para o centro do cômodo, na direção daquele que os trancafiara nas trevas.

Seu agressor, completamente dominado pelo pânico, correu para a portinhola, mas não rápido o suficiente para evitar que chegassem aos seus ouvidos os clamores de seus prisioneiros esquecidos:

— Você devia ter perdoado seu irmão.

— Você devia ter ligado para ela.

— Por que não aceitou a proposta?

— Estão na Alemanha, sabia?

— Ela está casada.

— Se você os tivesse convidado, naquela noite…

— Você não devia ter ido ao cinema com eles.

— E aquele curso do qual desistiu?

— Ela tem dois filhos, agora. Um deles é músico também.

— Seu pai perguntou de você.

E ao contrário do que acontecera lá embaixo, o estrondo com que a porta do sótão foi fechada, conquanto menos alto, conseguiu suplantar o grito de agonia e o choro agudo que escaparam do outro lado.

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